JOSÉ TENGARRINHA: NUNCA É TARDE
PARA HOMENAGEAR UM HERÓI
DA LIBERDADE E DA DEMOCRACIA
José Jorge Letria
José Tengarrinha, figura central da história da democracia portuguesa, completou recentemente 80 anos de vida e não faltaram amigos e ex-camaradas e companheiros a querem prestar-lhe um justo tributo por tudo o que deu, ao longo de décadas, ao combate por um Portugal mais justo e solidário.
Nascido em Portimão, José Tengarrinha foi jornalista no “Diário Ilustrado”, facto que tem sido pouco lembrado, mas também criador publicitário e dirigente político. A intensa actividade que desenvolveu na resistência à ditadura e que lhe valeu várias e duras penas de prisão prejudicou seriamente a sua actividade como académico, dado que se viu afastado da universidade, à qual só regressou para se doutorar depois do 25 de Abril, à semelhança do que aconteceu com Urbano Tavares Rodrigues e outros mais.
Conheci e tornei-me amigo de José Manuel Tengarrinha antes do 25 de Abril quando ele, militante comunista de longa data, dirigia o MDP/CDE, enquanto plataforma unitária, antes de se transformar em partido com representação parlamentar. Quando o MDP se autonomizou do PCP, não faltaram a Tengarrinha razões de queixa quanto à forma como o partido em que se fez para a política lidou com ele e com o património político que ele representava. Mais tarde viria a ter também justas razões de queixa do PS, mas, sobre isso, nunca lhe conheci desabafos amargos nem acertos de contas, pois é outra a dimensão deste intelectual sereno, lúcido, exigente e de imensa capacidade de organização que tem dedicado uma parte essencial da sua vida à investigação histórica, seja com os estudos sobre a história da imprensa, seja com a investigação sobre o século XIX e sobre as lutas sociais que marcaram o que viria a ser o advento da classe operária em Portugal. Nesse sentido, José Tengarrinha, sempre incansável e com projectos em vias de concretização, nunca deixou de ser um historiador comprometido. Da política foi-se, entretanto afastando, por cansaço e por desencanto. Perdeu a politica, ganhou a investigação história e a cidadania.
Enquanto fui vereador em Cascais, estive ligado à criação dos Cursos Internacionais de Verão e ao nascimento do Instituto de Cultura e Estudos Sociais, a que Tengarrinha continua a presidir e de que continua a ser o grande inspirador e organizador. Orgulho-me de ter contribuído para que esses projectos tenham ganho forma e sustentabilidade e para que José Manuel Tengarrinha tenha encontrado condições para deixar também a sua marca num sector importante da vida autárquica, no concelho onde reside há décadas.
Por vezes a dinâmica da vida política e social tende a deixar esquecer figuras com esta dimensão, qualidade e obra. O seu 80ºaniversário foi o pretexto certo para se evitar essa injustiça. Quando se fizer a história da vida política portuguesa na segunda metade do século XX, este algarvio conterrâneo de Manuel Teixeira Gomes será lembrado pelo muito que deu de si ao combate pela liberdade e pela democracia. Na verdade, ele faz já parte da História que investiga.
Recordo-me de o ter visto na liderança do Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, em Abril de 1973, e a ser libertado da prisão de Caxias em 26 de Abril de 1974. Basta-me isso para sentir orgulho em ser seu amigo e em ter partilhado com ele momentos que a vivência colectiva só pode perpetuar e valorizar. É desta massa e não de outra qualquer que são feitas as figuras de que Portugal deve orgulhar-se.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 3 da edição n.º 3933 de 27 de Abril de 2012

