Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma enorme e profunda tristeza

Bernardo de Brito e Cunha

É TODOS OS ANOS a mesma coisa, quando o futebol está no defeso e a paciência para ver o “Verão Total” já se esgotou – sobretudo quando a coisa é aquilo a que os estrangeiros chamam “double feature”, isto é, duas edições só com um intervalinho pelo meio. Sessão dupla, pronto! Veja-se só o plano das festas da RTP Informação: a Volta a França, para abrir, a que se juntarão não tarda nada os Jogos Olímpicos de Londres e em Agosto, para compor o ramalhete – e em grande – chega a Volta a Portugal. É o desporto que temos, até começar o futebol, mas estas são modalidades que muita gente não perde. E embora a RTP Informação seja transmitida pelo cabo, tal como o canal de que já aqui falei e que vai ter emitir os Jogos Olímpicos 24 horas por dia, não me parece que os “clientes” da RTP Informação troquem de canal, a não ser para ver uma prova específica que não seja transmitida por outro canal. Mas mesmo assim, a RTP Informação vai seguramente registar bons resultados neste próximo mês.

SEMPRE DEFENDI, ao longo dos muitos anos que escrevo esta coluna, que me devia limitar a falar daquilo que acontece nos canais generalistas. Como certamente têm acompanhado, esse propósito está cada vez mais difícil: não é fácil contentarmo-nos com as programações das televisões generalistas, salvo umas cada vez mais raras exceções. É também por isso que sempre escrevi que foi miserável o negócio da TDT, porque tinha sido uma ocasião esplêndida para que um número considerável de consumidores de televisão pudesse ter a possibilidade de escapar àquilo a que se pode chamar o “jugo das generalistas”. Não aconteceu assim, mas não tenhamos ilusões: aqueles que assinaram um contrato de distribuição de sinal de televisão, por mais pequeno que seja, têm outros horizontes.

AINDA NA ÚLTIMA segunda-feira assisti, na RTP 1, a um encher de chouriços que durou meia hora. Não creio que a RTP tenha de seguir as tendências dos outros canais: e só para preencher 30 minutos a seguir ao “Telejornal” é preciso ir buscar umas reportagens requentadas? Acho que não. Embora um deles, o que falava do ColorADD, uma invenção de um português do Porto, me dissesse diretamente respeito e aos outros daltónicos que andam por aí espalhados. Mas não passou exatamente disso: uma repetição escusada. Mas não são os únicos. E confesso-vos que é com grande dificuldade que me ligo à SIC ou à TVI. Não tenho paciência. Até porque tenho um serviço de televisão por cabo (mea culpa, mea maxima culpa!) e como não sou propriamente masoquista… aproveito. Veja-se, no bloco final, como já há 10 anos as coisas não eram muito diferentes…

MAS CONFESSO-VOS também que me preocupa, desde há anos, quando vejo, na lista das audiências, que o grupo “Outros” (que engloba o vídeo ou o DVD, as consolas de jogos e coisas afins) não pára de crescer. O número deste tal “Outros” anda muitas vezes a par com o generalista mais visto – tirando os dias em que o ultrapassa… Mas é no cabo que encontramos séries notáveis, principalmente norte-americanas ou inglesas e se muitas são a mesma receita de sempre, a verdade é que são sempre muito bem-feitas. E nos dias que correm, isso não é pouco. Mas preocupa-me este escalar dos “Outros” face à RTP: até porque não gostei dos olhinhos do ministro Relvas quando, na comissão parlamentar, falou da privatização de um dos canais da televisão pública…

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«Temos de o confessar: não há grande variedade de programas de televisão entre os quais possamos optar. É verdade que a programação da manhã, é ligeiramente diferente da da tarde, e também da da noite, mas a verdade é que televisão, para a maior parte de nós, tem horários definidos – o chamado horário nobre e que nos serve de pano de fundo ao jantar. O limite para um serão televisivo depende da resistência de cada um, das suas obrigações matinais e coisas afins. Imaginemos uma família normal, que chega a casa às 7 da noite, ou 7 e meia. Vai ter três telejornais à escolha – aqui a dificuldade está mesmo aí, na escolha – e depois disso, as opções são lastimáveis. Na SIC é a mesma receita, todos os dias: “Malucos do Riso”, “MasterPlan”, duas novelas, “Fúria de Viver” e “O Clone”. Na TVI, o panorama é muito semelhante, também com uma série de novelas encadeadas umas nas outras. Escolha? Não há. Estes dois canais só lá mais para a madrugada nos oferecem outras alternativas, entre séries e filmes. Mas a essas horas, concordemos, é um pouco tarde para estarmos a fazer opções. E, por vezes, é nessa zona já um pouco sonolenta do serão televisivo que se encontram as melhores possibilidades de escolha.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, pág. 15, ed. 3944 de 13 de Julho de 2012

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