José Jorge Letria
Durão Barroso falou de forma veemente e certeira no Parlamento Europeu sobre o que está acontecer na Europa. Disse, por exemplo, que é tempo de serem banidos os complexos de superioridade que levam algumas nações e povos a acharem que são melhores que os outros e lembrou que foi exactamente esse espírito que escancarou as portas a dois trágicos conflitos mundiais, sempre desencadeados neste continente. Disse também que há povos que, estando no pelotão dos mais desconsiderados, têm histórias muito mais antigas e exaltantes. Não falou das Grécia e de Portugal, o que se compreende, mas podia ter falado, embora a referência expressa não lhe favorecesse o discurso. E declarou ainda, sem papel na mão, que quando há chefes de governo que vêm para conferências de imprensa gabar-se de terem ganho em complexos processos negociais, é porque já estamos todos a perder.
O presidente da Comissão Europeia foi expressivamente aplaudido pelos eurodeputados presentes, incluindo por aqueles que muito gostariam de lhe ter dado réplica mas consideraram ser o momento errado para o fazerem. De resto, olhamos para tantos deputados e interrogamo-nos, para além da indiscutível legitimidade democrática de que estão investidos, qual é o poder real que hoje têm nesta Europa em convulsão, que vai lambendo as feridas da sua crescente e talvez irremediável divisão.
Durão Barroso foi duro e firme, mas fica por saber se ainda vai a tempo de fazer ouvir a sua voz, ou seja, de a tentar sobrepor à dos directórios que usurparam o poder de Bruxelas e tudo decidem, escandalosamente, nas costas da Comissão Europeia, sem que ninguém pareça ter poder para inverter o rumo dos acontecimentos.
O presidente da Comissão, quase sempre ladeado pelo outro presidente, um belga da total confiança da Srª Merkel, tem mesmo de falar com veemência e sem panos quentes, para que a sua voz se faça também ouvir em Portugal, onde, ainda em tempo de crise irá haver eleições presidenciais, tanto mais que não dispõe de um fórum televisivo todos os domingos à noite para realizar uma campanha de longuíssima duração, que dá espaço para falar de tudo, desde o associativismo, ao desporto, passando pela inevitável política.
A grande questão é saber se os europeus ainda acreditam nesta Europa e nas suas instituições, neste gigante económico e anão político que nunca teve uma política de defesa e uma diplomacia minimamente consistentes. A grande questão é saber se a Alemanha quer continuar a liderar esta Europa, que lhe perdoou os genocídios das guerras passadas e a ajudou a renascer das cinzas, espécie de Fénix com inclinação para uma estratégica amnésia. A grande questão é saber se os alemães já perceberam que, mesmo orientando as baterias para um futuro em parceria com os Estados Unidos e a China, sem esta Europa da União terão um futuro pouco sustentável. A grande questão está em saber se o carácter repetitivo e cíclico dos grandes conflitos não poderá estar à beira de ser tragicamente comprovado nos próximos anos, caso a batalha da solidariedade não saia triunfante e acabe por vencer a lógica da ganância, do egoísmo, do salve-se quem puder e do ajuste de contas antigas.
A Europa é hoje um denso novelo de angústias colectivas, manta de retalhos que o sonho comunitário deixou com inquietantes vulnerabilidades, e só por muito pouco não apetece chamar-lhe barril de pólvora, devido às conotações literalmente explosivas da expressão.
É verdade que Durão Barroso falou com veemência e convicção e que foi longamente aplaudido. Resta apenas saber se estes aplausos, como acontece com certas vozes, conseguem fazer-se ouvir nas consciências de quem irá decidir o futuro do projecto europeu e deste continente que é o nosso e que não se deve envergonhar da sua espantosa diversidade, riqueza e assombrosa História, só porque começa a aparecer quem teime em dizer que o seu tempo já expirou.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, pág. 7, ed. 3944 de 13 de Julho de 2012

