Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Abril 21st 2026

UMA CASA TRISTE E POUCO AREJADA

José Jorge Letria

Apesar da legitimidade democrática de que se encontra investido, o governo não consegue endireitar o barco de uma nação apreensiva e angustiada com o seu presente e sobretudo com o futuro das gerações vindouras. Só não o reconhece quem não quer, por medo ou por falta de uma visão objectiva da realidade.
O poder sempre foi e será o uso que dele se faz, não passando, sem esse conteúdo clarificador, de uma vaga abstracção. O actual poder é assumidamente neoliberal, desde a economia à saúde, desde a cultura à justiça e às finanças. É, como disse há anos um destacado político agora fora do activo a propósito de outra maioria, um governo que quer fazer passar o Estado à clandestinidade. E, no entanto, nunca se recorreu tanto ao Estado, enquanto braço operacional de uma autoridade vacilante, para impor a vontade de uma maioria que começa a revelar divergências assinaláveis no seu seio, vindas algumas de ex-governantes e até de deputados da maioria, para já não falar do próprio Presidente da República.
As pessoas estão cansadas e deprimidas porque sabem que tem de haver uma saída, mas hesitam quanto a qual possa ser no actual quadro político-partidário. Pensam, inevitavelmente, naquilo que tinham e deixaram de ter, nas dolorosas contas que fazem todos os meses para sobreviver e na forma de continuarem a subsistir com um mínimo de dignidade.
Os esforços e sacrifícios são suportáveis se houver justiça social e fiscal e se não continuarmos a ver os ricos a tornarem-se ainda mais ricos com os despojos do que os desfavorecidos vão perdendo de forma acelerada e inquietante. A palavra recorrente na boca dos portugueses é “Basta !”, mas resta saber como se virá a corporizar política e socialmente este justo e inadiável grito de revolta.
Enquanto a nossa vida colectiva continuar a ser assombrada pelo escândalo do BCP, ainda com muitos culpados por apurar, enquanto as nossas empresas públicas continuarem a ser privatizadas e retalhadas para aumentarem a riqueza de quem a adquiriu de forma duvidosa, enquanto a penalização recair sobre os que já pouco ou nada têm, só por absoluta passividade e inércia as pessoas se absterão de reagir.
É sempre mau sinal quando os governantes se sentem na necessidade de reforçar os seus dispositivos de segurança pessoal. Isso significa que estão conscientes do que se passa em seu redor, e, por certo, até terão a esse respeito informação de que a maioria dos cidadãos não dispõe.
Agora que parece iminente um agravamento da carga fiscal, estando a economia agonizante e o desemprego sempre a aumentar, é bom que se ponham os olhos naquilo que o governo de François Hollande fez em França, criando novos e pesados impostos sobre as grandes fortunas. Em Portugal, a maioria treme quando lhe falam no assunto, com o argumento de que é preciso evitar que esse desande para outras paragens. Mas a verdade é que, tudo leva a crer, já houve muitas fortunas que se puseram a salvo. E depois não é com descontos de 50 por cento em dias feriados que se inverte e disfarça a amarga ordem das coisas.
Portugal caiu com estrondo do patamar da quimera do progresso e da riqueza, e caiu desamparado sobre os escombros da suas ilusões desenvolvimentistas. A maioria dos obreiros dessa ilusão ainda está no activo, no parlamento, no comentário político e económico e na vida pública. Parece que não estavam cá, mas a verdade é que estavam e nós lembramo-nos deles. Alguns chegaram ao topo da hierarquia de poderosas empresas privadas com as quais lidaram directamente enquanto eram governantes, e nós lembramo-nos deles.
Alguns continuam na sombra a influenciar e a manipular as decisões políticas e empresariais e, mesmo estando pouco visíveis, nós lembramo-nos deles. A democracia deve ser dialogante, tolerante e não revanchista, mas não pode perder a memória, ficando vítima de uma espécie de Alzheimer cívico que a pode mesmo fazer entrar em colapso.
Depois vêm a solidariedade (sempre bem-vinda até no plano de uma cidadania activa que nos mobilize e aproxime)) e a caridade, às vezes só caridadezinha, como denunciava cantando o Zé Barata-Moura, no final dos anos sessenta do século passado, para nos fazerem lembrar que somos bons, generosos e muito humanos, enquanto as questões de fundo permanecem escandalosamente por solucionar. Atenua um pouco, mas não resolve. Lembro-me sempre, quando era miúdo, do pão com marmelada que era dado aos pobrezinhos para não faltarem à catequese. Enquanto não houver justiça, equidade e transparência toda a indignação é e continuará a ser legítima. E falta saber como tudo isto irá evoluir nos próximos meses, já que muito mal andará a democracia se não tiver em si as soluções que podem ajudar a arrumar esta casa triste e mal arejada.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 3 da edição n.º 3945 de 20 de Junho de 2012

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