José Jorge Letria
Em regra, pouco se fala ou escreve sobre o assunto, mas o Campo de Drancy, ou Campo de Concentração de Drancy, permanece como uma mancha negra na memória da França livre e democrática por aquilo que representou entre Agosto de 1941 e o mesmo mês de 1944.
Durante aqueles anos de ocupação e terror nazi, este campo localizado a nordeste de Paris, na pequena cidade de Drancy, hoje Seine-Saint-Denis, foi espaço de internamento para muitos milhares de judeus franceses e de outras nacionalidades depois enviados das gares de Bourget e de Bobigny para campos de extermínio como Auschwitz. Revelam as estatísticas, com a sua frieza impessoal, que nove em cada 10 judeus deportados para os campos da morte estiveram internados em Drancy, nome que ainda hoje envergonha os franceses que não pertencem à extrema-direita e que são, felizmente, a esmagadora maioria, para bem da liberdade e da democracia, na pátria da Revolução Francesa e dos Direitos do Homem.
É certo que Paris estava ocupada desde Junho de 1940 pelas tropas de Hitler, mas também é verdade que houve franceses que colaboraram activamente nesta acção desumana e destruidora e que o anti-semitismo tem, historicamente, tradição e raízes em França, como o demonstra o célebre “Caso Dreyfuss”, que custou um ano de prisão ao grande escritor Émile Zola, por ter publicado o violento libelo “J’Accuse !”.
O Presidente François Hollande, que representa o espírito democrático da França que resistiu nessa época e que agora resiste às tentativas de hegemonização económica e financeira do governo da senhora Merkel, inaugurou recentemente um memorial que evoca e homenageia os cerca de 65 mil judeus que por ali passaram a caminho dos campos onde acabaram por ser dizimados. Sabe-se que apenas dois mil conseguiram sobreviver a essa onda de extermínio que custou a vida a seis milhões de judeus nos campos de concentração nazis.
Esta página triste da História de França foi mantida no limbo de um semi-esquecimento até que, na década de noventa, com Jacques Chirac na Presidência, foi reaberta, para ser devidamente estudada e investigada, também em nome da consciência de um povo amante da sua liberdade.
Mas é importante que seja François Hollande a inaugurar este memorial e a assumir o valor simbólico deste acto, num momento em que a Europa enfrenta as sombras carregadas de novas formas de conflitualidade e convive com ameaças que ninguém poderá dizer se virão ou não a ter concretização. Com uma Alemanha que impõe regras, prazos e formas de penalização a países como a Grécia, Portugal, a Espanha ou a Itália, ao mesmo tempo que aplaude e quase beatifica a Irlanda por estar a sair da zona de maior instabilidade e risco, é importante que esta consciência europeia que tem como pilares o amor à liberdade, os direitos humanos e os valores da democracia e da liberdade seja reactivada, fortalecida e celebrada. Ninguém nos pode garantir que, mesmo sem divisões Panzer ou a Luftwaffe, os povos da Europa não venham a viver um novo ciclo de sofrimento, destruição e perda. Quando a ambição, a cobiça e a vontade de poder imperam, ninguém pode dizer com segurança o que nos espera. Drancy é apenas uma bandeira negra que ondula no horizonte dos nossos temores, expectativas e sobressaltos.
Depois da guerra, o campo de Drancy foi usado para “depurar” colaboracionistas, e por lá passaram nomes como o dramaturgo Sacha Guitry. É indispensável que esses tempos nunca mais regressem a uma Europa esmagada pela economia de casino de uns Estados Unidos convencidos do absoluto domínio do mundo após a derrocada do Muro de Berlim.
Hoje, o Memorial de Drancy, mais do que uma evocação de uma História ainda recente, constitui um aviso e um alerta para que as novas gerações não deixem esta Europa da diversidade, da memória e de sucessivos milagres culturais, artísticos e científicos converter-se de novo num imenso campo de escombros e lágrimas, como duas vezes aconteceu no século XX, por culpa da Alemanha, é bom que se diga.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3956 de 9 de Novembro de 2012

