A arte de aldrabar, copiar, mentir…
Bernardo de Brito e Cunha
JULGO QUE JÁ AQUI tinha falado na novela da TVI “Doida por Ti”, como sendo uma comédia e que, portanto, poderia ser a salvação das noites telenovelísticas da estação, cujas novelas noturnas são uma estopada sem nome. Dizer isto é pouco: há ali coisas que só um espírito muito doente poderia conceber. Por isso foi com algum ânimo que fui vendo os anúncios da TVI, que anunciavam a novela como uma comédia. Só se for uma comédia de enganos… Não vi muitos episódios desta novela (que continua a dar antes do jornal da noite), mas a coisa – toda ela – me cheira a déjà vu. Para começar, o filme “Enquanto Dormias”, de 1995, em que Sandra Bullock se faz passar por noiva de um homem em coma. Pois aqui também temos disso, embora a pergunta “Onde é que eu já vi isto?” não se fique por aqui. Vamos ver como se desenrolam as coisas. Olívia é doida por Miguel, ele é o homem dos seus sonhos. Isto, pelo menos, é o que ela acredita porque mal o conhece. Na realidade, Miguel é um playboy de poucos escrúpulos que, além de muitos outros, mantém um romance secreto com a noiva do irmão. Mas Bianca também é doida por Miguel – e até agora, quase toda a gente é doida por toda a gente. Mas o casamento com David, que é irmão dele, é um negócio que convém às respetivas famílias.
Entra em cena David que, ironia do destino ou só para me contrariar aqui há umas duas frases atrás, não é doido por ninguém, porque nunca teve tempo para isso. É o filho bem comportadinho, que fez sempre o que se esperava dele. Vai casar-se com Bianca (imagine-se isto nos nossos dias!), porque é o seu dever. É nesta altura que Miguel sofre um atentado que quase o mata. É salvo por Olívia que vê realizado o sonho de estar perto dele, e assume então o papel de Sandra Bullock. Mas, pouco a pouco, a vida secreta de Miguel, a relação com Bianca e os negócios escuros em que ele se mete para manter a vida de playboy, vão assombrando o que parecia ser a felicidade perfeita. E ali perto, mesmo muito perto, está David que, já sabemos, nunca se permitiu gostar de ninguém. Não quero ir mais além: a não ser escrever que tudo isto é feito sem graça, que foi o que me prometeram.
A SÉRIE “A Guerra”, que vai na sua quarta série (e creio que a última) continua a fazer a dissecação do que foi a guerra nas colónias portuguesas. Num dos últimos episódios, mais exatamente no que antecedeu a descrição do massacre de Wiriamu, denunciado pelo padre Adrian Hastings, tivemos uma das descrições que mais me impressionou. O endurecimento da guerra em Moçambique acabaria por determinar o aparecimento de situações novas e novos protagonistas, tal como seria o caso dos missionários espanhóis que acusam tropas portuguesas e rodesianas de atrocidades na zona de Mucumbura. Acabam por ser presos, tal como dois padres portugueses, que viriam a reproduzir essas denúncias nas suas missas, numa das quais não permitiram que a bandeira portuguesa estivesse junto ao altar da igreja. Foram eles Joaquim Sampaio e Fernando Mendes, párocos da Igreja do Macúti, que foram julgados e condenados em Tribunal Militar. Eles e outros ex-reclusos contaram como se vivia na Cadeia da Machava, a prisão da DGS por onde passaram milhares de pessoas ao longo dos anos e que pudemos ver através de filmagens surpreendentes existentes no arquivo da RTP. O governo português perseguiu e expulsou de Moçambique muitos missionários e padres que, com a sua atitude perante a guerra, entram em ruptura com a hierarquia da Igreja. E é exatamente aqui, na “hierarquia da Igreja”, que apareceu o mais surpreendente: o bispo que é enviado por Salazar (embora dissesse que ia em nome de Sua Santidade) e que, hoje, em entrevista, desmente todo e qualquer contato com os dois padres… A coisa é de um topete de nos deixar a todos banzados.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Admitamos, como já aqui o fiz, que a série “O Processo dos Távoras” era uma grande série – coisa que, de facto, eu acho que é. Alguém se lembraria de a pôr no ar exactamente no mesmo dia em que, na TVI, há o especial do “Big Brother Famosos”? Ninguém, a não ser alguém da RTP. Como se isto fosse possível de aceitar com calma: uma série que deve ter custado uma pipa de massa, condenada a ser exibida para meia dúzia de pessoas – é forma de dizer, claro. Por isso a RTP não tem mais para nos dar que não seja um ou dois ou até mesmo três programas de informação. A RTP, apesar de ter, como as outras estações, um director de programas, parece que está limitada a um director de informação. E a informação é importante, naturalmente, mas o resto, a parte lúdica da programação, também faz falta, olá se faz. Porque até as estações de televisão que são especificamente de informação acabam por ter os seus momentos de quebra, de lazer.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3956 de 9 de Novembro de 2012

