Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Junho 10th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

“Estou constipado, estou a morrer”
Bernardo de Brito e Cunha
ESTA EXPRESSÃO, utilizada muitas vezes para descrever a pieguice do sexo masculino, serve também como pedido de desculpa antecipado para o caso de esta crónica sair pior do que o habitual – mas eu estou mesmo a morrer…
E já que é a primeira crónica do ano queria agradecer àqueles três ou quatro leitores que, invariavelmente, interpretam bem aquilo que semanalmente escrevo mal.

O ano começou, de resto, com o anúncio da nova grelha da RTP, que terá efeitos a partir da próxima segunda-feira. É, parece, um tempo de grandes alterações, sobretudo ao nível de trocas entre os centros de produção de Lisboa e Porto: e isso, que não deve ser coisa fácil, vai ser feito com menos 16 milhões de euros e com receitas publicitárias em queda. Se já 2012 registara um abaixamento de 12 por cento nessas receitas, as previsões para este ano são ainda mais pessimistas.
É, portanto, neste clima de encolha que vamos assistir à “Praça da Alegria” passar para Lisboa, ao passo que toda a produção da RTP2 vai passar para o Porto e outras produções de outros canais passam também para o Porto, nomeadamente da RTP1 e da RTP Internacional. Diz a Administração liderada por Alberto da Ponte que estas medidas não trarão encargos extra já que alguns serviços que eram contratados externamente passam a ser feitos dentro da estação pública. A perda de importância dos serviços do Porto dentro da RTP levantou polémica depois da decisão tomada pela administração, em Dezembro, de passar a produzir em Lisboa o programa televisivo matinal “Praça da Alegria”. A decisão levou mesmo os trabalhadores da RTP Porto a promoverem uma vigília. Esta mudança, que irá acontecer durante este mês, parece significar, segundo a Administração, uma melhor utilização dos meios humanos e físicos que existem no Porto. E como as eleições autárquicas estão aí, ainda há dias o presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes, lançou um apelo “razoável” ao Conselho de Administração da RTP para que o núcleo central do serviço público fosse para o Porto. “Nesta fase acho que seria muito interessante que passasse para o Porto tudo o que tem a ver com conteúdos e produção autónoma da RTP2 e a seguir, eventualmente, no futuro próximo, o serviço público nomeadamente a RTP Internacional e a RTP África”, afirmou o também candidato do PSD à Câmara do Porto.

De resto, pouco mais se sabe, em pormenor. Exceto que o “Telejornal” vai encolher para os 45 minutos (o que me parece saudável se isso significar que desaparecem os fait divers que fazem com que José Rodrigues dos Santos pisque o olho) e que nesta nova grelha não haverá concursos – o que implica que se vai ter de arranjar o que fazer a José Carlos Malato. Também Catarina Furtado tem um programa novo: e entre beijos a meninos desfavorecidos e a dança, alguma coisa se há de arranjar… O que me deixou siderado foi o ter sabido que um dos programas de entretenimento desta nova grelha será “Os Compadres” – o que me deixa entender que “O Preço Certo” desaparece (era um concurso, afinal) e que também foi preciso encontrar forma de manter Fernando Mendes ocupado. Uma manta de retalhos, mas só a partir de segunda-feira começaremos a tirar a prova dos noves.

Como referi aqui em finais do ano passado, a SIC tem liderado as noites com duas novelas, “Dancin’ Days” e “Gabriela”. Mas aos fins de semana, em que não passa novelas, perde para a TVI e para os seus “Big Brother” tenham eles o nome que tiverem. Pois parece que para tentar inverter este estado de coisas, a SIC vai responder (e de forma veemente, sem dúvida!) com um programa de… João Manzarra…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Já a RTP 2, que o governo quis eliminar, fosse de que maneira fosse – falou-se em vender, pura e simplesmente fechar-lhe as portas, etc, etc – acabou por ser entregue à “sociedade civil”, o que quer que isso possa significar. Ninguém, fiquei com essa sensação, quis acabar com o único canal que era, efectivamente, uma alternativa completa a toda a restante programação. Onde é que poderíamos encontrar tudo aquilo que a RTP 2 nos mostrou, mesmo na totalidade dos outros canais? Isso seria impossível. Só a RTP 2 tinha o “Acontece”, esse caso raro dos telediários culturais em toda a Europa, só a RTP 2 tinha essa coisa notável que é uma entrevistadora convidar pessoas para os estúdios e, imagine-se!, deixá-las falar, sem interrupções. Chama-se Ana Sousa Dias e foi um valor acrescentado àquele canal de audiências tão baixas. Os espectadores seriam poucos – mas eram certamente bons e contavam com a RTP 2 para poderem ver um pouco de televisão sem correrem o risco de embrutecimento puro e simples.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3963 de 11 de Janeiro de 2013

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