José Jorge Letria
É quando as crises económicas e sociais se agudizam que as águas tendem a separar-se definitivamente, sendo essa, por vezes, a antecâmara das revoluções que fazem História. Nunca se sabe o que pode vir a seguir, mas é bom que se saiba de que lado se vai estar, porque, quando as dinâmicas sociais se radicalizam, é sempre inevitável a tomada de posições e a escolha dos lados da barricada.
A França terá sempre a marca de uma das revoluções mais profundas, radicais e marcantes da História da humanidade. Houve muito derramamento de sangue, muito terror e uma mexida drásticas nas estruturas e nas mentalidades. Mas também houve reformas e mudanças que deram ao povo um protagonismo e um conjunto de direitos que nunca antes tivera. Sem ela talvez não tivesse havido, em 1917, a Revolução Russa.
Quando a Revolução Francesa de Danton, Marat e Robespierre se tornou irreversível, muitos foram os que se exilaram por essa Europa fora, sendo o primeiro destino a Inglaterra, por estar próxima e por ser uma monarquia assumidamente em confronto com os novos destinos da vizinha França.
Quando a instituição monárquica foi reinstaurada em França, muitos regressaram, por certo gratos a Napoleão e aos seus descendentes que, entretanto, se tornaram imperiais, para revolta de génios como Ludwig van Beethoven. Indignado ao ver a coroa imperial na cabeça de Napoleão, rasurou a dedicatória feita ao pequeno grande corso que quis ser senhor da Europa inteira e morreu amargurado e solitário na ilha de Santa Helena.
Agora há franceses que voltam a exilar-se, não por razões políticas mas por razões fiscais, ditadas, como é habitual, pelo egoísmo e pelo interesse dos muito ricos. Supõe-se que, nos últimos anos, já partiram milhares para os “paraísos fiscais” da Suíça, do Luxemburgo e da Bélgica. O caso mais recente e notório é o do actor Gérard Depardieu, para mim muito mais Cyrano de Bérgerac do que o caricatural Obélix e que considero um dos melhores actores mundiais das últimas décadas. Mas Dépardieu é, como Alain Delon, Johny Halliday, Michel Sardou ou Brigitte Bardot um cidadão assumidamente de direita que apoiou e foi protegido por Nicholas Sarkozy e se tornou um poderoso homem de negócios com interesses nas áreas da restauração, da produção cinematográficas e dos veículos motorizados. Ao saber que estava sujeito a uma penalização de 75 por cento dos seus rendimentos acima de um milhão de euros, protestou, ameaçou, mudou-se fisicamente para a Bélgica e acabou por renunciar à nacionalidade francesa, atitude que me choca pelo tudo que representa.
Logo lhe foi manifestado apoio por outras figuras do cinema e da música, todas de direitas e, por isso, opositoras declaradas da política de François Hollande.
Confirmando que os muitos ricos tendem sempre, seja qual for a sua nacionalidade, a ser egoístas e radicais na defesa dos seus interesses pessoais contra os colectivos, Depardieu e a direita dividida que o apoia deixaram bem claro que, em horas como esta, a única pátria que conta para eles é a do cifrão, do capital e da riqueza acumulada. Por certo o actor terá esquecido que muitos dos cidadãos que lhes deram fama e fortuna aplaudindo-o nas salas de cinema estão no pelotão dos que sofrem com esta crise e que esperam pela solidariedade responsável e não caritativa dos mais ricos e poderosos.
Falo de França, mas podia falar de Portugal e de outros países em recessão, com a diferença de que aqui não houve uma dura penalização fiscal dos muito ricos. Se houvesse, não tardariam a “exilar-se” nos “paraísos fiscais” mais próximos. O problema é que, quando os governos não têm coragem política para ir até onde François Hollande e o seu governo foram, ficam sempre latentes outras formas mais drásticas de se criar justiça social. Uma delas é a queda dos governos iníquos e outra é a revolta do povo, que, quando soa a hora, nunca se esquece do rumo a tomar para chegar à Bastilha.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3963 de 11 de Janeiro de 2013

