Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 11th 2026

A ÉTICA TORNOU O PAPA MAIS HUMANO

José Jorge Letria

A Igreja Católica é a mais antiga organização humana ainda no activo. Ao longo de 2.000 anos, graças à inicial capacidade organizativa e propagandística de Paulo, um judeu convertido à mensagem de Cristo, expandiu-se, fortaleceu-se, concentrou poder e riqueza e hoje enfrenta as naturais dificuldades resultantes do crescimento da sociedade da informação, do relativismo moral, do consumismo feroz, do triunfo do “ter” sobre o “ser” e do avanço de centenas de crenças alternativas, muitas delas polarizadas em seitas de muito duvidosa credibilidade.
O fim do Império Romano também começou assim, com a morte da crença no politeísmo, com o apertar do cerco por outros povos e culturas e com o colapso de um ciclo de civilização.
Sobre tudo isto e muito mais terá meditado, nestes últimos anos, Joseph Ratzinger, um grande intelectual da Igreja a quem coube a espinhosa tarefa de suceder a um papa talhado para o sofrimento e para o martírio, cuja imensa popularidade de massas fez esquecer o pontífice que pôs termo a muitas das conquistas vindas do pontificado aberto e progressista de João XXIII e do Vaticano II. Na realidade, João Paulo II, um polaco que chegou ao Vaticano aos 59 anos, que resistiu às balas de um atentado e que relançou a mística do terceiro segredo de Fátima, assumiu posições retrógradas, desde logo ao condenar o uso do preservativo em pleno período de explosão da epidemia do HIV. Isso não pode ser esquecido ou apagado por nenhuma beatificação ou canonização.
Viajante incansável, homem de uma fé inabalável e construtor de uma imagem que se transformou na marca global de uma Igreja a tentar combater a crise das vocações religiosas, João Paulo II tornou-se uma verdadeiro “Papa Super Star”, um ícone da viragem do século XX para o XXI e fez de todos nós espectadores impotentes da sua decadência física, até se transformar numa sombra de si próprio, incapaz de desistir e de reconhecer que não tinha condições mínimas para prosseguir.
Joseph Ratzinger teve de lidar com a pesada responsabilidade dessa herança, desse legado, e mostrou, em vários momentos, estar à altura dessa missão. Foi firme ao enfrentar o discurso agressivo de um Islão ameaçador e cada vez mais politizado e também na firmeza com que encarou o escândalo da pedofilia entranhado no seio da hierarquia da Igreja de forma vergonhosa e imperdoável.
E chegou finalmente o momento que ninguém esperava. Foi ele que o escolheu, que o deve ter preparado longamente e que o revelou usando o latim da velha Igreja para partilhar a decisão com altos dignitários do Vaticano. O seu acto gerou um consenso que muito poucas decisões de expressão global conseguiram obter. Bento XVI, que trazia consigo o rótulo de conservador e de intelectual distante da realidade, mostrou ser muito mais humano e sensível do que não crentes como eu poderiam alguma vez ter esperado ou previsto.
Reconhecendo, em consciência, não possuir condições para continuar a exercer as suas funções, Bento XVI deu ao mundo uma lição de lucidez e humanidade, evitou o amargo espectáculo de decrepitude dado pelo seu antecessor, renunciando por certo a qualquer hipótese de beatificação, denunciou de forma indirecta a sinistra teia de intriga e conspiração que quase desde sempre mina o Vaticano, mostrou que a vontade do Homem pode ser mais forte que a “incumbência” divina e, seguramente, deixou as portas abertas para que se inicie um novo ciclo na história da Igreja Católica. Só por isso já conquistou um lugar de pleno mérito nessa história e, já agora, na história do mundo contemporâneo.
A sua resignação, sobretudo para um não crente como é o autor deste artigo, foi um acto de ética muito mais do que um acto de fé, o que torna Joseph Ratzinger muito mais humano e digno de admiração e respeito, demonstrando a tudo e a todos que, na realidade, não existem mandatos vitalícios. E bom seria que também as monarquias reflectissem sobre esta lição e este exemplo, a começar por aquelas que estão minadas por escândalos e fraudes e que custam fortunas aos contribuintes.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3969 de 22 de Fevereiro de 2013

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