Opções no mínimo estranhas
Bernardo de Brito e Cunha
POR MOTIVOS de calendário – e também um pouco da minha memória, confesso – deixei passar em claro um trabalho de reportagem que a SIC exibiu. Chamou-se “A Fraude”, tinha a ver com o buraco do BPN e seus implicados, e foi assinado por Pedro Coelho. Acontece que esse trabalho, que embora tenha sido um trabalho de fôlego, mas que não adiantou muito em termos de respostas bombásticas e acabou por ser uma resenha de (quase) tudo o que já se sabia, começou por ter dois erros crassos, na minha opinião. Por um lado, a circunstância de ter sido dividido em quatro programas passados em dias consecutivos (o que fez com que muita gente, por motivos pessoais, tenha perdido um ou outro dos “episódios”) e, por outro, o facto de a SIC não lhe ter dado uma autonomia própria e o ter encaixado no “Jornal das 8”. É verdade que este último facto deu ao jornal um acréscimo de espectadores, mas não sei se terá compensado. Para mim, esta solução foi arranjada para não dar cabo do horário de “Dancin’ Days”, a novela líder do período da noite. Mas a reportagem propriamente dita, foi um trabalho de fôlego, bem feito, com uma narrativa bem construída, embora não tenha acrescentado muito de novo àquilo que já se sabia (e que o DN tinha revelado na sua Grande Investigação, em abril ou maio do ano passado). Ou seja, o essencial mantém-se: as perguntas que estavam sem resposta continuam por responder.
O QUE ME SURPREENDE (e continuo a falar da SIC) é que uma estação com aquela experiência se comporte, as mais das vezes, como se tivesse começado ontem. A SIC percebeu que “Dancin’ Days” ganhava durante a semana (fez, de resto, uma promoção a dizer isso mesmo) e aproveitou para anunciar que a novela ia ser exibida também aos sábados. Anunciou, mas não fez: e enquanto a TVI avançava no sábado com um episódio de “Destinos Cruzados” (novela que parece não querer arrancar, nem com Liliane Marise…) a SIC mantinha a sua programação habitual: aquela tolice que dá pelo nome de “Gosto Disto”, a transmissão de outra telenovela das noites de semana, “Páginas da Vida”, depois o “Sábado à Luta”, que já foi atirado para a meia-noite, e à uma da manhã o (muito) anunciado último episódio da brilhante série britânica “Dowton Abbey”.
A BEM DIZER, julgo que não terá sido o último episódio, mas sim os dois últimos. Não é admissível, em primeiro lugar, que um episódio final seja atirado para a uma da manhã – seja lá de que coisa for, quanto mais “Downton Abbey”… E depois, não é normal que quem quisesse acompanhar o final daquela temporada da série tivesse que ter esperado pelas… 3h40 da manhã. Com a agravante de que o episódio (ou episódios…) foi tão interrompido por tanto intervalo para publicidade que, àquela hora e com a minha idade, já se tornava muito difícil saber a quantas andava. Não se faz: mas infelizmente já temos anos de experiência em termos de séries. E o facto de esta ter sido mostrada até ao fim já é uma conquista: porque eu já acompanhei séries que, de repente, desapareceram e eu não lhes cheguei a ver o final.
CADA VEZ HÁ MENOS futebol transmitido em sinal aberto. O campeonato nacional desapareceu nas mãos de interesses alheios ao grande público, e restaram a Taça de Portugal e a da Liga, e os jogos das competições europeias onde há equipas portuguesas, neste caso reduzidas a duas. Por isso, quando passa uma destas competições, acompanho. Mas contrariado: porque há nos comentários que as acompanham uma noção de que não estamos na televisão, mas sim na rádio. Parece-me que não há necessidade de relatar cada um desses jogos, no sentido radiofónico do termo. Caramba, nós conseguimos ver quando há um lançamento lateral, ou quando o guarda-redes repõe a bola em jogo… E comentários complementares para além do óbvio não há?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Ainda pensei que era uma chalaça, mas não era: nesse dia, a circunstância de ter aberto oficialmente a época dos saldos, foi notícia em tudo o que era lado. Eu sei que os tempos são de crise, que muita gente – mas mesmo muita gente – não poderá comprar um trapinho novo se não for nos saldos. Mas essas pessoas estão a par desses acontecimentos e não devem precisar de ser avisadas. Apesar de tudo, como se fosse um assunto de importância nacional, lá estavam os noticiários a dar conta do evento. Acho estranho – a não ser que fosse para dar a possibilidade de toda a população ir a correr comprar a tanga com que o primeiro-ministro diz que devemos estar. E que Vítor Constâncio, do Banco de Portugal, veio recentemente dizer que deverá ser o nosso traje habitual até no ano que vem. E eis como uma simples notícia de saldos nos atira para aquilo que é habitual nos grandes costureiros – as novidades para a época de 2003-2004…»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3969 de 22 de Fevereiro de 2013

