Semanário Regionalista Independente
Sábado Junho 13th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma semana de pavor incontrolável

Bernardo de Brito e Cunha

REPARO COMO AS OPÇÕES televisivas têm aumentado de forma substancial. Nem sempre de uma forma qualitativa notória, mas as opções existem e isso parece-me que é o resultado de o próprio número de canais (na televisão por cabo, naturalmente) também ter aumentado. A maior parte dos canais por cabo tem um defeito que é inerente à sua condição: as constantes repetições de programas, séries e filmes. Tanto, que não é raro encontrarmos o mesmíssimo episódio ou o mesmo filme no dia seguinte, se por acaso sintonizamos o mesmo canal. Este acréscimo de oferta faz com que nos percamos um pouco em todas essas programações mas creio que estamos (ainda) um pouco formatados pelos quatro canais, digamos assim, “clássicos”. Ou, se quisermos ser mais corretos, os quatro canais terrestres – embora hoje em dia seja difícil chamar-lhes assim, dado que em muitas zonas eles chegam de forma aérea… Pormenores.

CONFESSO O MEU PECADO: não sei bem que estarei a fazer no final da noite de sábado para não ter se não visto a primeira emissão de “Governo Sombra”, na TVI 24. Tal como não sei por que razão, à tarde, invariavelmente dou comigo a olhar um dos três canais nacionais ou –se o desespero se instala de forma irredutível , um filme qualquer, em vez de passar um par de horas na companhia da Globo? Porque fico a ver Fátima Lopes, a Conceição Lino ou José Carlos Malato se posso estar na companhia de Ana Maria Braga, no canal grátis da Globo? Não sei: devem ter sido muitos anos passados com apenas dois e, mais recentemente, quatro canais.

TODAS COMEMORAÇÕES são um exercício, as mais das vezes, de acariciamento do próprio umbigo. Em cinco dias apenas assisti a duas, nem mais, nem menos. A bem dizer, foi apenas a uma e três quartos, porque não podia perder o episódio de “Avenida Brasil”. Mesmo assim, a gala dos 20 anos da TVI (que aliás começou bem antes do próprio dia o que, como se sabe, até pode dar azar) e que, à data a que escrevo, ainda continua a ser evocada em todos os noticiários da estação, não foi mais (nem menos) do que uma festa entre os habitantes daquela zona de Queluz de Baixo. “Ai tanto que fizemos pela produção nacional!”, quase se pode ouvir da minha janela. “Ai o número de canais que já abrimos no cabo!”. E, no entanto, não ouvi a frase que poderia ter salvo as comemorações: “Quem foi que nos mandou ter começado com os reality shows?” Isso realmente não ouvi…

A OUTRA COMEMORAÇÃO também foi do mesmo género, só que com a vantagem de ter sido mais curta. Os Óscares deixaram-me, como habitualmente, com os sonos trocados para o resto da semana, mas caramba, foram só na noite de domingo! E foi um espectáculo da treta, já que me perguntam. Se aquilo, como anunciado, se destinava a comemorar os musicais de Hollywood, então eu vou ali e já venho. Catherine Zeta-Jones a fazer playback do “All That Jazz” que cantou há dez anos? Haja dó! Adele a ganhar o Óscar para a melhor canção do ano em “Skyfall”? Valha-me Deus e Alá e Buda: até a própria não queria acreditar no “feito”…

E UMA PEQUENA mas indispensável pergunta: quem foi que se lembrou, nos Estados Unidos, que seria boa ideia continuar a saga da família Ewing de “Dallas”? Mas, pior do que isso, quem foi que em Portugal achou que era boa ideia trazê-la para Portugal? Há coisas que me deixam completamente abazurdido…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Acompanhamos as aulas de “Operação Triunfo” e vemos resultados no domingo seguinte. (…) Numa altura em que se fala tanto da música portuguesa que (não) passa na rádio, não pude deixar de estranhar que, na primeira gala, a de abertura, onde os 16 candidatos cantaram todos a solo, tenhamos ouvido 11 canções estrangeiras e apenas cinco portuguesas. É que isto perfaz a baixíssima percentagem (embora superior e em muito à de muitas rádios portuguesas) de apenas 31 por cento de música nacional. (…) Entre essas cinco canções portuguesas contava-se uma de Jorge Palma (“Deixa-me Rir”), outra de Rui Veloso (“Porto Sentido”) e outra ainda (imagine-se!) de José Afonso – nada mais nada menos do que a nada fácil “Os Índios da Meia-Praia”. E não terá sido por acaso que a intérprete desta última, Flora, de Barcelos, acabaria por ser a preferida do público, uma semana depois. O caso não era para menos, que a canção é difícil e a jovem de 19 anos saiu-se às mil maravilhas.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3970 de 1 de Março de 2013

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