Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 11th 2026

“GRÂNDOLA” VOLTA A SER CANÇÃO DE LUTA NUM PORTUGAL SEM JUSTIÇA SOCIAL

José Jorge Letria

Quando José Afonso, em meados de 1964, antes de partir com a família para Moçambique, de onde regressaria em 1967, compôs a canção “Grândola, Vila Morena” como forma de agradecimento e homenagem à Sociedade Musical Fraternidade Grandolense, estava longe de imaginar que ela viria a ser a segunda e a mais importante senha do Movimento dos Capitães, em 25 de Abril de 1974, depois um símbolo mobilizador dos valores de Abril e da luta pela liberdade e por fim, no momento actual, a expressão do protesto de cidadãos revoltados em vários actos públicos que contam com a presença de membros do governo.
Falo de Zeca Afonso e desta canção em particular porque fomos amigos antes e depois do 25 de Abril, porque cantámos juntos o “Grândola” em Portugal e em Espanha e porque conheço bem as circunstâncias em que esta canção foi escolhida para segunda senha do movimento. Isso aconteceu no dia 29 de Março de 1974, menos de um mês antes do 25 de Abril, no final de um espectáculo que juntou no Coliseu dos Recreios a quase totalidade dos cantores que representavam a luta de largos sectores da população contra a ditadura de Salazar e Caetano. “Grândola”, que, inexplicavelmente, não fora afectada pelos cortes da Censura, foi a canção escolhida para o final do espectáculo a que assistiram, de forma entusiástica e comovida, mais de seis mil pessoas.
Sei que Zeca Afonso, cujo aniversário da morte se assinalou no passado dia 23 de Fevereiro, preferia que tivesse sido outra canção a escolhida para encerrar aquele memorável momento de encontro entre os cantores politicamente comprometidos e o seu público, pois entendia que outra, com refrão, seria mais eficaz e mobilizadora. Sei que teria escolhido o “Venham Mais Cinco” ou “O Que Faz Falta”, mas essas não tinham sido poupadas pelos censores. Foi assim que oficiais do Movimento dos Capitães escolheram a canção de 1964 para ajudar Portugal a fazer História.
O autor e intérprete só na manhã de 25 de Abril soube que a sua canção fora senha do MFA, e soube-o em Lisboa, em casa de um amigo, onde pernoitara, receando uma nova detenção pela PIDE, semelhante à que sofrera no ano anterior e que lhe impusera reclusão no forte de Caxias. Eu estivera ligado, como civil, à chegada do disco com o “Grândola” ao programa “Limite” da Rádio Renascença, onde entrou através do jornalista Carlos Albino, meu camarada na redacção do “República” e colaborador diário daquele programa.
Quando Zeca Afonso soube da utilização da canção como senha militar, disse-me ao telefone, desvalorizando o facto, com a sua habitual modéstia: “Agora, o importante é haver uma verdadeira mobilização popular para que se vá muito para além de um golpe militar”. E tinha razão e a sua “Grândola” contribuiu para que o golpe se tornasse revolução e para que a revolução fortalecesse a liberdade e a democracia.
É por isso que o recurso actual a esta canção como bandeira de um novo protesto adquire um significado especial. Zeca Afonso foi sempre um militante de esquerda, que nunca se filiou no PCP e que apoiou todas as acções de base que achava coerentes e verdadeiramente participadas. “Grândola, Vila Morena” pertence materialmente aos herdeiros de José Afonso, em termos de direitos autorais e morais, e também ao povo português. Mas pertence muito mais à esquerda do que à direita, sobretudo à direita que continua a conhecer melhor a letra do “Angola É nossa” do que as palavras da bela canção-senha de Abril que alguns espanhóis sabem melhor que muitos portugueses, sobretudo na Galiza, onde Zeca era e continua a ser admirado e mesmo idolatrado.
Seja qual for a polémica estabelecida em torno deste novo fôlego do “Grândola”, é importante que se diga que esta é uma homenagem ao espírito livre, combativo e rebelde de um criador e intérprete de excepção e à intemporalidade do seu talento. Ontem como hoje, ela cumpre a sua função e não se apropria dela quem quer. Só quem pode e sabe, e quem tem legitimidade social para o fazer, em nome de valores e de princípios que o ultraliberalismo no poder diariamente insulta e põe em causa. E é importante que a juventude actual descubra este hino à fraternidade que fortalece a esperança num futuro digno, justo, livre e democrático. Foi em nome desses valores que, em ditadura, nasceu “Grândola, Vila Morena”, há quase meio século.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3970 de 1 de Março de 2013

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