José Jorge Letria
Um dos problemas com a que a débil democracia portuguesa se debate é o da autoridade do Estado, crescentemente minada por fragilidades e contradições internas e externas que a vão afectando dia a dia.
Como se não bastasse um governo a braços com insanáveis divisões internas, com um partido minoritário a viver a esquizofrenia de estar dentro querendo estar fora e de estar fora pressionado pela necessidade de se manter dentro, já que é muito forte o apelo do poder, temos um Presidente da República que, em nome da estabilidade, deixou de ser árbitro para se tornar parte e deixou de ser fiscal para se tornar paladino de uma maioria que mantém a legitimidade eleitoral mas que há muito perdeu a legitimidade social.
Aos longos períodos de ensurdecedor silêncio, acrescenta o Presidente da República intervenções difíceis de adjectivar num quadro de racionalidade política. Foi o caso da recente associação do alegado êxito da sétima avaliação da troika à intervenção de Nossa Senhora de Fátima.
Se o Presidente não fosse homem de crença religiosa e o tivesse feito como forma de ironia, teria revelado um grande mau gosto. Porém, assumindo-se como católico convicto, só poderia estar a falar a sério, o que não torna menos censurável a afirmação.
A verdade é que, nem mesmo durante a ditadura, Salazar, Tomás ou Caetano, apesar de terem esse vento de feição, nunca fizeram referências tão explícitas à divindade de culto de milhares de portugueses, certamente por pudor e por entenderem que há coisas que, em circunstância alguma, podem ser misturadas e confundidas. Quem se quer legitimar pela via do sagrado num Estado laico, normalmente perde o apoio divino e também o popular.
As análises feitas por comentadores políticos de vários quadrantes revelaram perplexidade e até indignação por esta saída infeliz do Presidente da República, ainda por cima “colada” à romagem de 13 de Maio ao Santuário de Fátima.
A matéria religiosa sempre foi e será muito sensível politicamente e estou convicto de que a própria hierarquia da Igreja, com destaque para o novo Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, homem de grande cultura, conhecimento histórico e bom senso, teria preferido que o inquilino de Belém evitasse esta espúria associação entre troika e Fátima, foice metida em seara alheia que só gerou perplexidade e incómodo.
O problema que se coloca é, entretanto, o seguinte: estará o actual Presidente em condições de gerir com equidistância e isento sentido de Estado uma crise que não pára de se agudizar e que vai muito para além dos ultimatos da troika, já que é também de valores da estrutura da vida política e partidária? Multiplicam-se as vozes dos que afirmam que não. Desde que falou da insuficiência da sua reforma para fazer face às despesas domésticas até esta infeliz incursão no território do sagrado, o Presidente Cavaco Silva tem demonstrado que a longa experiência política acumulada em governos de maioria absoluta e num mandato presidencial não o deixaram ao abrigo de erros de palmatória que o fragilizam e, fragilizando-o, enfraquecem o Estado ao seu mais alto nível e a sua capacidade de intervir com discernimento e eficácia.
Quem já andou tanto nos caminhos da política em que também realizou a rodagem de uma viatura nova que o levou à liderança do PSD, não pode misturar alhos com bugalhos, confundir águas e planos de intervenção, generalizando a convicção de que, de Belém, se espera e exige muito mais. Só espero nunca ouvir este Presidente dizer, numa qualquer inauguração, que foi a primeira vez que lá esteve desde a última em que por lá apareceu, reedição triste dos discursos de outros tempos. E, já agora, o que fazem tantos assessores, conselheiros e consultores que também têm o dever de Estado de evitar este tipo de situações, no mínimo embaraçosas?
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3982 de 24 de Maio de 2013

