Novelas, reality shows e futebol
Bernardo de Brito e Cunha
JULGO JÁ ME TER referido aqui, de raspão, a este caso que me parece paradigmático: o de uma novela andar a bater, sistematicamente, um reality show. Isto entusiasma-me e dá-me esperança, no sentido de que ainda há uma luz no fundo de um túnel que parecia dirigir-se, inexorável, para a estupidificação da massa de telespetadores em geral. Isto é: a partir do momento em que uma novela (que embora fraquinha) bate um Big Brother qualquer, então isso deve ser sinal de que há esperança de que as coisas estejam a mudar – e, indo ligeiramente mais longe, de que as pessoas estejam a preferir um trabalho de ficção, para mais nacional, a uma qualquer “novela” da vida real, como costumam ser apresentados. No entanto, convém referir que esta mudança levou mais de uma década a produzir efeito. E aqui já não vos sei dizer se o mérito está do lado desta novela portuguesa, ou se o demérito deverá assentar, todo inteiro, no cansativo esquema dos reality shows – a que se poderá ainda acrescentar o facto de sermos um país pequeno e, consequentemente, não haver aqui “celebridades” que cheguem para alimentar esta “máquina”. Ou, pelo menos, se me perdoam a redundância, celebridades que sejam efetivamente… célebres. Aquilo a que temos assistido em grande parte (ia escrever maioria, mas enfim…) são pessoas que viram as suas carreiras abrandar e que procuram uma visibilidade que lhas relance. Isto é: são pessoas que, como milhares de outras, procuram trabalho neste país…
E DEPOIS, um pouco no seguimento disto, tenho visto a TVI e a SIC virem apregoar as suas performances, cada uma puxando a brasa às suas audiências. Segundo as duas estações de televisão, cada uma por seu lado, em Maio não houve melhor do que uma delas. Mas se mudarmos de canal, ah então foi esse que venceu em toda a linha! Isto é capaz de deixar os espetadores baralhados, mas ninguém os esclarece, nem sequer diz qual a fonte das audiências. Desde que as audiências começaram a ser medidas pela GfK (contra quem a TVI está contra, tal como a RTP) que a empresa anterior, a Marktest, continua a fazer uma medição paralela e são estas a que tenho acesso todas as manhãs e que me permitem escrever o que está explicado no primeiro bloco desta crónica. Uma das televisões agarra-se à GfK e a outra à Marktest? Ignoro. Mas era bom que isto se esclarecesse.
DESDE DOMINGO que assisti diversas vezes a uma cena, que foi repetida vezes sem conta. Essas imagens diziam respeito, mais uma vez, a um jogo de futebol que acabou em confrontos violentos entre jogadores, técnicos e espetadores. Imagens lamentáveis, sempre que acontecem no decorrer ou no final daquilo que se pretende uma competição e um espetáculo. Mas estas tinham qualquer coisa de muito especial: não o facto de as equipas em campo serem o Porto e o Benfica – o que, só de si e inexplicavelmente já dá direito a forças policiais em número que ultrapassa o razoável – mas de se tratarem das equipas daqueles clubes, mas de… juniores. Quando, ainda júnior, um jogador não é capaz de se controlar, que fará quando for sénior e profissional? Ou será que os juniores já se comportam assim porque viram, na televisão ou em campo, alguns colegas seus, mais velhos, comportarem-se de forma lamentável? E será que, depois de assistirem a isso, não houve quem lhes dissesse que aquilo estava mal? Há, como se percebe, um problema grave no nosso futebol: será que alguém estará, neste momento, preocupado em resolvê-lo ou, para os dirigentes desportivos isto não passa de mais um fait divers?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Como diria o meu amigo Manel, “estou completamente abazurdido”: estou a referir-me aos “Globos de Ouro” da SIC, transmitidos há uma semana. E porquê? É que aqueles troféus (que, salvo erro, vão na sua oitava edição), nos anos de 2000, 2001 e 2002 – as três edições anteriores a esta a que assistimos – foram ignóbil e descaradamente parciais, premiando os programas, as pessoas e a estação que os organiza, promove e transmite. Durante três anos assistimos a isto, já com um sorrisinho nos lábios: não deixa de ser verdade que a festa é da SIC, os prémios são da SIC e, portanto, se à SIC lhe apetece fazer a festa, atirar os foguetes e ainda ir a correr buscar as canas, caramba!, quem somos nós para lhe tirar esse gosto? A SIC pode fazer tudo isso – e até muito mais – só que corria, de então em diante, o risco de não poder vir dizer que aqueles prémios eram credíveis. Depois do que se passou durante esses três anos, não teria ficado propriamente admirado que alguém, para a edição deste ano, se recusasse a ser nomeado. Mas os profissionais nunca chegaram a fazer isso, revelando mais fair play do que a estação que distribuía, a meias com uma revista do grupo, as estatuetas – mas muitos dos nomeados não estiveram presentes.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ediçãon.º 3984 de 7 de Junho de 2013

