José Jorge Letria
O estudo realizado pelo economista e ex-ministro da Economia Augusto Mateus sobre o modo como foram aplicados os fundos comunitários em Portugal entre 1986 e 2011 permite tirar várias conclusões interessantes que também nos ajudam a perceber o estado em que Portugal se encontra e a forma como a ilusão de prosperidade e abundância nos foi empurrando para o abismo em que hoje nos encontramos.
Os mais de 80 mil milhões de euros recebidos ajudaram a criar infratestruturas que contribuíram para mudar a face do país e, teoricamente, para formar milhões de quadros para realizarem o processo de modernização indispensável. O problema reside, porém, no seguinte: a ausência de uma consistente estratégia nacional fez com que passasse a haver auto-estradas a mais e investimento na Educação a menos, o que levou Portugal a tornar-se uma floresta de betão com uma rede viária de excelência e estádios de futebol a mais, mas sem uma visão sustentada e séria do que deveria ser o seu futuro se outras tivessem sido as opções de várias levas de responsáveis políticos legitimados pelo voto popular.
Na realidade, houve muita gente que enriqueceu à custa dos fundos comunitários, a começar por aqueles que, sem controle, conseguiram enfiar o braço no “pote” (expressão cara ao Primeiro-Ministro Passos Coelho) das verbas para formação. Houve zonas do país onde à excelência do parque automóvel não terá, por certo, sido alheia a abundância de fundos usados com mão muito larga e de forma mais ou menos discricionária.
Por dia, feitas as contas, Portugal terá recebido cerca de nove milhões de euros por dia, o que é um número impressionante. Modernizámo-nos, mas não prosperámos. “Governámo-nos” (muitos foram os que se “governaram”), muito mais do que governámos o país e, sobretudo, fomos permitindo que se instalasse a ilusão de que, pertencendo ao clubes dos ricos, nunca deixaríamos de ser ricos, esquecendo dramaticamente a factura que ficaria para pagar e que agora nos é colocada diariamente defronte dos olhos.
Já sem as especiarias da Índia e o fluxo financeiro da venda do volfrâmio aos Aliados e aos alemães, Portugal deslocou a sua dependência para os fundos de Bruxelas, ao mesmo tempo que, nos “aviários” dos partidos, formava quadros para gerirem e assegurarem a perpetuação deste estado de coisas, sem sentido crítico e com a visão de que o essencial seria manter o “status quo”, e o resultado está à vida. Nunca estivemos tão pobres e a viver numa casa tão moderna, tão bem posta e tão composta. O pior é que o verniz estalou e se constatou que, por baixo, havia um corpo em chaga, miséria, impreparação, falta de transparência, hábitos insustentáveis e a proverbial e dramática falta de estratégia. Mais ainda: por baixo havia um país ansioso por ser moderno, mas ainda arcaico na mentalidade, nos métodos, na mais básica visão das coisas.
Falamos de coisas estruturais. As mesmas que agravam de dia para dia o quadro gerado pela incompetência e o fundamentalismo desumano e ultraliberal de um governo que há muito perdeu legitimidade social, embora mantenha a legitimidade eleitoral decorrente da soma aritmética dos votos alcançados pelos dois partidos que suportam o governo.
Agora trata-se de mudar, e isso passa forçosamente por eleições antecipadas, como acaba de ser proposto pelo Provedor de Justiça, Alfredo José de Sousa. O povo português tem o direito, não só de se indignar, como de escolher, em tempo útil, uma alternativa democrática que lhe permita fazer renascer a esperança que o faça olhar para o futuro com menos receio e angústia.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3984 de 7-6-2013

