Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

E lá vão eles, como aconselhado, emigrando…

Bernardo de Brito e Cunha

NÃO SEI SE SE LEMBRAM, mas na conferência de imprensa de apresentação do Orçamento do Estado para 2013, a 15 de Outubro do ano passado, o agora ex-ministro Vítor Gaspar explicou a motivação para o seu trabalho como governante: “Pela minha parte, a participação no Governo tem por único propósito retribuir o enorme investimento que o país colocou na minha educação.” Mas Vítor Gaspar continuou a descrever a sua educação como “tendo sido extraordinariamente cara”: “Portugal investiu na minha educação de forma muito generosa durante algumas décadas. É minha obrigação estar disponível para retribuir essa dádiva que o país me deu.” Atente-se nas palavras e expressões “extraordinariamente cara”, “muito generosa”, “enorme investimento” e “dádiva”, e vejamos em que é que consistiu então a educação do ministro. Gaspar, nascido em Lisboa em 1960, fez o liceu na escola secundária Padre António Vieira, na freguesia de S. João de Brito – uma escola pública.

SEGUNDO UM PERFIL publicado na revista Focus em 2011, o antigo primeiro-ministro Pedro Santana Lopes e o coordenador do Bloco de Esquerda Francisco Louçã (primo de Gaspar) frequentaram a mesma escola no mesmo período, embora sejam ambos quatro anos mais velhos. Nos rankings das escolas secundárias com base na média dos resultados dos exames nacionais, a Padre António Vieira ficou o ano passado em 427.º lugar, entre 608 escolas. Mas depois desta passagem por uma escola pública, Vítor Gaspar não fez outra coisa que não fosse recorrer a instituições privadas: fez a sua licenciatura na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica – uma universidade privada, que não recebe financiamentos directos do Orçamento do Estado. Segundo a sua biografia oficial, o ex-ministro completou a licenciatura em 1982, um ano antes de o Governo do “Bloco Central” liderado por Mário Soares ter pedido ajuda financeira ao FMI.

A PARTIR DAÍ, o “enorme investimento” na educação de Gaspar prosseguiu na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, onde completou um mestrado, em 1985. Três anos depois, doutorou-se também na Nova; em 1992, na mesma universidade, fez a sua agregação, completando-se aí a educação formal de Vítor Gaspar em Portugal, a “dádiva” que, vinte anos depois, o ministro das Finanças afirmou querer retribuir. Daqui resta concluir que aquele “enorme investimento”, afinal, não terá sido assim tão grande – uma vez que ele conseguiu pagar a “dádiva” em dois anos de exercício ministerial…

MAS A HISTÓRIA CONTINUA. Quando grande parte das pessoas esperava que Pedro Passos Coelho nomeasse Paulo Macedo para as Finanças (e muitas televisões deram-no como certo) eis que é nomeada Maria Luís Albuquerque. Como é possível que Pedro Passos Coelho tivesse escolhido esta sua antiga professora, contra a opinião do seu companheiro de coligação? Para mais, não esqueçamos que a nomeada foi responsável pela contratação de vários contratos swap quando foi directora do departamento de gestão financeira da gestora da rede ferroviária REFER, entre 2001 e 2007.

E DEPOIS; PAULO PORTAS. À hora a que escrevo ainda não se sabe bem o porquê da sua demissão, mas crê-se que terá sido exactamente por causa da nomeação de Maria Luís Albuquerque. Vou manter a crónica em aberto, porque às oito da noite pode ser que o Governo caia… e a nova ministra das Finanças o tenha sido apenas durante umas horas.
PS – Esperei e não caiu: mas como amanhã mais dois ministros do CDS-PP (Mota Soares e Assunção Cristas) vão apresentar a demissão, a coisa não deve demorar. O que significa que uma noite destas Cavaco Silva vai ter uma conversinha connosco e o Governo – todo ele – passará apenas a gerir os assuntos correntes. O que, a bem dizer, significa que a ministra acabará por nunca o ser…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Não poderá constituir grande surpresa o facto de o ministro da presidência, Nuno Morais Sarmento, ter estado na RTP a ser entrevistado por Judite de Sousa. Por um lado, porque isso aconteceu escassos dias depois de a lei da televisão ter passado (mais uma vez) pela Assembleia da República; e, por outro, porque a própria Judite tinha alguns particulares (quase) pessoais a resolver com o ministro. Como se sabe, foi ela quem entrevistou Fátima Felgueiras no Brasil, entrevista essa que foi para o ar escassos minutos depois da conferência de imprensa da ex-autarca e que, com ela, já conseguira para cima de 15 minutos de tempo de antena – espaço de tempo bem mais vasto do que aquele de que muitos partidos gozam em tempo de eleições.
O próprio ministro confessou ter questionado a administração da RTP quanto a esse facto que lhe pareceu insólito: o de se dar tamanho ênfase a uma pessoa que anda fugida à justiça.»

(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3988 de 5 de Julho de 2013

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