Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

O LEGADO DE NELSON MANDELA NÃO DEVE SER EXPLORADO POLITICAMENTE

José Jorge Letria

Nelson Mandela encontra-se em estado crítico no momento em que escrevo este texto. É possível que quando os leitores o lerem já o grande líder político e mestre espiritual da humanidade já não faça parte do número dos vivos. Aos 94 anos, após 27 anos de sofrimento e de privação de liberdade, é natural que assim aconteça. É uma vida que chega ao fim e tal deve acontecer com o máximo de dignidade e com o mínimo de aproveitamento político, venha ele de onde vier.
Num momento em que a política e os políticos enfrentam um dos mais sombrios momentos de descrédito e de suspeição, Nelson Mandela, com o seu exemplo de humanismo e de sabedoria profunda, ficou muito acima e muito para além desse patamar tantas vezes marcado pela previsibilidade, pela mediocridade e pelo oportunismo.
Mandela soube unir o seu povo, brancos, mestiços e negros, soube fazer a pedagogia da responsabilidade individual e da reconciliação nacional na pátria do “apartheid” e soube, acima de tudo, demonstrar que no combate de um grande político e de um grande líder espiritual também há lugar para o amor, para o amor pela humanidade, pelos valores que nos engrandecem e libertam e para o entendimento da vida como um acto permanente de reconciliação com a natureza e com a liberdade.
Os anos de reclusão nas mais duras condições, vendo os seus camaradas e o povo negro da África do Sul ser humilhado, assassinado e discriminado, foram de incessante aprendizagem e de aperfeiçoamento interior, ao ponto de haver quem considere que Mandela se aproximou de uma verdadeira santidade laica que o converteu numa referência de tolerância, de respeito pelo outro, de dádiva e de partilha que deixou o seu legado muito próximo do que existe de mais grandioso e perene na tradição cristã.
Na linha de Gandhi, de Martin Luther King e de outros líderes que marcaram e engrandeceram a história da humanidade com a convicção de que a violência multiplica e violência e franqueia as portas aos sentimentos mais vis e irracionais, Nelson Mandela soube fazer da serenidade, da bondade e da capacidade de ouvir e compreender uma lição de vida e uma verdadeira e inexcedível filosofia do diálogo.
Por isso, tantos passaram a dá-lo como exemplo, em todas as latitudes e culturas e tantos decidiram escrever sobre ele, merecendo destaque o livro que acerca do seu percurso e exemplo foi escrito por Jack Lang, ex-ministro da Cultura de França.
Agora que a sua caminhada está quase a terminar, todos sentimos que nos vai deixar aquele que, num mundo em crise global, simbolizou e simboliza os valores e os princípios humanistas que podem ajudar o Homem a salvar a humanidade e a garantir, em paz, o futuro das gerações que hoje sofrem com o desemprego, com o racismo, com todas as formas de exclusão e também com as formas extremas de alienação representadas pelo relativismo moral, pelo consumismo acrítico e pelo hedonismo descontrolado e sem objectivo.
Mandela, com a luminosidade do seu exemplo, conseguiu demonstrar que somos capazes de construir um mundo melhor, mais humano e mais justo, desde que seja essa a nossa vontade e esse o nosso principal desígnio.
Entristece-me assistir à tentativa de apropriação deste legado de grandeza e luz, a que não escapou o próprio Presidente Barack Obama, que viajou para a África do Sul com a mulher, como se fosse receber das mãos de um Nelson Mandela já inconsciente o testemunho para cortar outras metas da política e da vida. É certo que Mandela e Obama têm em comum o património de civilização da negritude. Mas Barack Obama, mesmo sendo o homem mais poderoso do mundo e um político de raro talento, tem um longuíssimo caminho a percorrer para conseguir ocupar o lugar cimeiro e único de Nelson Mandela, que não precisa de coroações ou de entronizações para estar mais perto da transcendência que da contabilidade demasiado humana das coisas da política.
Que o último suspiro de Mandela seja o impulso inspirador de que a humanidade precisa para não se deixar destruir pela ganância, pela mesquinhez, pela sede de poder e pela mais cruel insensibilidade ante o sofrimento dos que nada têm mas possuem o direito à indignação e à vida.
O capital político que muitos vão querer extrair do legado de Nelson Mandela na hora da despedida não vai servir para ganhar eleições ou outros combates políticos. É demasiado grandioso e humano para se diluir e confundir com essas estratégias que aviltam muito mais do que engrandecem. Que quem viveu de forma exemplar e motivadora, tenha o direito de morrer em paz, para poder ser sempre ser recordado em glória, com infinito respeito e imensa saudade.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3988 de 5 de Julho de 2013

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