E não é que isto anda de meter medo?
Bernardo de Brito e Cunha
CONFESSO: ando até com medo de ligar o televisor. Por a programação ser desoladora e estupidificante? Isso também, claro, mas o meu medo vai mais além. Mas antes de ir até esse “mais além” queria citar o linguista, filósofo e activista político norte-americano Naom Chomsky que, em finais da década de 80, escreveu um texto a que chamou “Dez Estratégias de Manipulação através dos média”. O primeiro ponto dessas estratégias refere-se à “estratégia da distracção” e diz o seguinte: “O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à quinta com outros animais.” Isto chega para explicar a vacuidade das notícias que nos são transmitidas?
MAS CHOMSKY vai ainda mais longe. Em três outros pontos, o norte-americano refere, por exemplo, o papel da emoção sobre a reflexão: “Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto-circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…”; ou manter o público na ignorância: “Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que o grau de ignorância que separa as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar.” Alguém reconhece aqui a estratégia do ministro da educação Nuno Crato? Há um quarto de século que acho notáveis as teorias de Chomsky, mas nunca pensei que se pudessem vir a implantar em Portugal. Estava enganado…
E AGORA, o “mais além”, que se tem acentuado nos últimos tempos. Tenho, todas as manhãs, o grande receio de ligar o televisor: não exactamente por causa da programação, que já sei com o que conto, mas com o terror de que o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete de seu nome e “barão do PSD” por aconchego político, tenha aberto a boca durante a noite. O homem fala e arma um aranzel de todo o tamanho com Angola. O sujeito viaja, vai ao Oriente e dá, praticamente como garantido, um segundo resgate. Não sei se Passos Coelho lhe deu um puxão de orelhas por algum desses dois casos, mas a verdade é que uma boa parte do Governo, em vez de governar, anda a arranjar desculpas, justificações e explicações quanto ao verdadeiro sentido das palavras de Machete. Este rapaz anda a tornar-se num pesadelo.
“UMA EQUIPA da TVI percorreu o país”, assim começava o último ponto da semana passada: e assim começa também esta, e por razões semelhantes. Ao longo de vários meses, a TVI investigou a fundo um hospital e um centro de saúde. O tema do “Repórter TVI” da passada segunda-feira (mais uma vez integrado no “Jornal das 8”) era a promiscuidade entre o público e o privado no Serviço Nacional de Saúde. A equipa da TVI encontrou dezenas de doentes que desmentem consultas e até diagnósticos com que foram inscritos no Serviço Nacional de Saúde, o que altera enormemente os índices de produtividade apresentados pelo SNS. Os repórteres da TVI chegarem mesmo a surpreender um cirurgião a dar consultas privadas durante o horário na urgência de um grande hospital público. O ministro da Saúde não se mostrou disponível para comentar durante a feitura da reportagem mas, no dia seguinte, a própria TVI noticiava que o ministério ia abrir um inquérito. Agora, quando alguns médicos que testemunharam os factos já tinham escrito à ministra da Saúde do anterior governo a descrevê-los? E que insistiram junto do actual ministro!?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Era incontornável que a entrevista passasse por aqui [a notícia de Ferro Rodrigues no escândalo de pedofilia na Casa Pia], com Judite de Sousa a querer vasculhar o mais possível – mas a ser colocada no seu lugar quando Ferro Rodrigues lhe falou no marido, que é figura pública e autarca… Aí já Judite de Sousa achou que os casos eram diferentes… E na segunda parte, bastante, bastante mais curta, falou-se do governo e do (mau) estado do país. E foi aí que fez mais falta uma dicção perfeita a Ferro Rodrigues, para que se percebessem inteiramente os números apontados, o descontrole, tudo. Para que se percebesse como este país está.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4003 de 15-11-2013

