José Jorge Letria
Reli, há dias, o prefácio de João Gaspar Simões ao livro “Diário da Peste de Londres”, do inglês Daniel Defoe, que também traduziu, e dei-me conta de que este ano se comemoram 110 anos do nascimento daquele que foi, sem dúvida, o mais influente crítico literário português do século XX.
Crítico impressionista mas rigoroso, exigente e não sectário, Gaspar Simões foi também um ficcionista inspirado, um dos fundadores da revista-movimento da “Presença”, juntamente com José Régio, Branquinho da Fonseca e Adolfo Casais Monteiro, para além de ter sido o grande responsável pela verdadeira descoberta da obra de Fernando Pessoa e pela sua primeira biografia, ainda hoje obra de referência.
O meio literário português, predominantemente de influência marxista, nunca nutriu grandes simpatias por Gaspar Simões, que navegava noutras águas ideológicas.
Natural da Figueira da Foz e licenciado em Direito, Gaspar Simões foi de tudo um pouco no domínio da vida literária: desde tradutor a fundador de revistas literárias, mas também ficcionista, dramaturgo, biógrafo e acima de tudo crítico, sobretudo nas páginas do “Diário de Notícias”, onde a sua página era lida com atenção e algum temor. Nesse aspecto, Gaspar Simões desempenhou um papel único, como fica comprovado pelos volumes de crítica que a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, a cujos quadros pertenceu, tem vindo a publicar. Mas também publicou textos críticos no “Diário de Lisboa”, no “Diário Popular”, em “O Primeiro de Janeiro” e em “O Mundo Literário”.
Da sua obra romanesca destacam-se títulos como “Elói ou o Romance de uma Cabeça” e “Uma História de Província”.
Como biógrafo deixou uma obra extensa, merecendo destaque os livros escritos sobre Pessoa, Eça de Queirós, Camilo Pessanha, Antero de Quental e José Régio, entre outros. Pessoalmente, recordo a impressão que me deixou o livro “Retratos de Poetas que Conheci”, de 1974, informativo e muitas vezes iluminador em relação a obras e personalidades.
Não tendo recebido a influência da corrente estruturalista e das novas correntes universitárias da área da linguística e dos estudos de literatura comparada, Gaspar Simões mostrou sempre ter um “faro” especialmente apurado para detectar o talento e a consistência das novas obras literárias onde eles de facto existiam. E foram mais as vezes em que acertou do que aquelas em que se enganou.
É também assinalável o seu trabalho como tradutor, que tornou acessível ao leitor português obras fundamentais de Goerges Bernanos, Jean Cocteau, Katherine Mansefield, William Shakespeare, Thomas Mann, Dostoievsky, Daniel Defoe e Tolstoi.
Quando se fizer o balanço do contributo de João Gaspar Simões para a história literária portuguesa, ele ficará indissoluvelmente ligado ao nome de Fernando Pessoa, que deu a conhecer como escritor e homem a várias gerações. Isso seria bastante para fazermos desta efeméride muito discreta um motivo de celebração.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4003 de 15-11-2013

