José Jorge Letria
Do mesmo modo que não consigo esconder a irrita¬ção que me causam certos humoristas com algum talento que utilizam as suas incursões humo¬rísticas no espaço televisivo para depois se trans¬formarem em suportes exclusivos de milionárias campanhas publicitárias, também não consigo disfarçar o desagrado que em mim provoca a verdadeira praga de programas com “chefs” gastronómicos, que encontramos nas televisões do chamado mundo ocidental com uma profusão só parecida com a da propagação de cogumelos.
Trata-se, naturalmente, de um fenómeno de moda ao qual é muito difícil escapar. Mas, como um dia disse Coco Cha¬nel, “a moda é tudo o que passa de moda”. E esta moda também está condenada a passar, como a de certas músicas que se ouvem em escesso e depois começam a enjoar, quase ao nível da total rejeição gástrica.
Portugal tem das melhores gastronomias do mundo e, consequentemente, das melhores cozinheiras e cozinheiros do mundo, e não foram precisos estes programas-concur¬sos para essa realidade se consolidar. Uma das poucas vantagens que estes programas têm é a de contribuírem para que haja mais homens a cozinhar, vencido que está há muito o preconceito que levava a pensar que a cozinha é um espaço só feminino. Nada disso. É de todos e aí se afirmam grandes talentos, mesmo sem o mediatismo da fama televisiva, a que se seguem livros, campanhas de publicidade, entrevistas um pouco por toda a parte.
Pensando nestas campanhas, não posso deixar de me lembrar de um clássico literário como “Volúpia”, do português Albino Forjaz de Sampaio, que há muitas décadas tratava a arte de cozinhar como isso mesmo, ou seja, como uma verdadeira arte.
Comparados os programas do género que chegam do Reino Unido ou, dos Estados Unidos ou da Austrália, verificamos que as diferenças nem são grandes, excepto nos meios de que a produção dispõe e no talento dos “chefs” para comunicarem com o grande público. Depois falta a estes programas o fundamental que é o cheiro. Por mais que façam, não há nada que o substitua.
Faça-se, por outro lado, a justiça de se recordar que a RTP teve grandes programas de culinária, muito antes desta “febre” dos “chefs”, merecendo destaque, acima de todos os outros, os de Maria de Lourdes Modesto, ines¬que¬cíveis.
Para além disso, ressalta um aspecto que é paradoxal e dolo¬roso. Assistimos as estes festins televisivos a que não faltam as carnes de excelência, os ingredientes re¬quintados e a caça e não podemos deixar de pensar nas centenas de milhares de portugueses que hoje vivem com dificuldades e passam fome. Ainda por cima, são precisa¬mente esses que, por não terem meios para ir ao teatro, ao cinema ou para comprarem livros, ocupam os seus tempos cada vez mais livres a verem apenas televisão. É como mostrar uma caudalosa fonte de água pura e fresca a quem está a morrer de sede. Mas os programadores lá sabem !
Deixando uma nota de humor negro, só espero que ninguém se lembre de adaptar à televisão um clássico do surrealismo literário português intitulado “O Clube dos Antropófagos”, de Manuel de Lima, um escritor hoje praticamente esquecido, que também era um violinista de talento. Havia de ser bonito !
Outra nota de humor inevitável pode bem ser esta: à falta de verdadeiros chefes na arte da governação em Portugal e no mundo, temos estes “chefs” de tacho e panela. S espero que nunca alcancem o poder, sob pena de nos cortarem às postas em directo ou diferido, triste fim num país já tão triste.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4006, de 6 de Dezembro de 2013.

