Francisco, principalmente Francisco
Bernardo de Brito e Cunha
GOSTO DESTE PAPA. O Papa Francisco tem, no entanto, um contra: o de parecer ter saído de um romance de Dan Brown, no melhor dos sentidos – ou no pior. Não tem nada a ver com João Paulo, muito menos ainda com o alemão Ratzinger e estes dois já eram abismais no que os separava. Mas Francisco tem, desde que foi eleito pelos seus pares cardeais (os primeiros, de resto, a serem criticados por ele), feito críticas que têm vindo a subir de tom. Não é subir de tom: é escolher os alvos com uma precisão milimétrica. E de cada vez que escreve ou diz uma frase que seja, já está a morder os calcanhares a alguém – ou, pior ainda, a alguma coisa.
NÃO FALO em Dan Brown e nos seus romances à toa. Se se tratasse de um romance de Brown, há muito (apesar dos poucos meses de pontificado) que Francisco já teria sido abatido por um qualquer sniper, a mando de quem quer que fosse, instalado numa torre do Vaticano. Esperemos que não seja. Quando no “Evangelii Gaudium” o Papa “repete o desejo de uma Igreja pobre, ferida e suja após sair à rua”, ou “não quero uma Igreja preocupada em ser o centro e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos”, diz Francisco, que continua: “A exortação sublinha a necessidade de fazer crescer a responsabilidade dos leigos, mantidos à margem nas decisões por um excessivo clericalismo, bem como a de ampliar o espaço para uma presença feminina mais incisiva”.
MAS O PAPA foi mais longe: Francisco refere já no fim o seu texto, “a denúncia do actual sistema económico, preso a um mercado divinizado, e lamenta os “ataques à liberdade religiosa”. Francisco “deixa claro que a Igreja não vai mudar a sua posição na defesa da vida e pede ajuda para as vítimas de tráfico e de novas formas de escravidão”. Tirar poder ao topo da Igreja, torpedear a ostentação ou aumentar a intervenção das mulheres e dos leigos já me parece ser algo à beira do revolucionário. Mas que dizer de partes que a notícia da Ecclesia não releva, citadas por todas as agências noticiosas e por todos os jornais do mundo, quando se lê, no link do site da agência, o texto completo que Francisco escreveu?
DEPOIS É QUE VEM o pior, ou o melhor, dependendo do ponto de vista. E fica apenas uma frase para demonstrar as razões da minha confiança: “Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa.” Esta clareza do pensamento de Francisco não é nova para a Igreja, é uma verdade teórica, mas será, aposto, a que incomoda mais nestes tempos decadentes. Estou enganado quando acho que, num romance de Dan Brown, este Papa já teria sido abatido? Como diriam os latinos, et tamen vivit, ou seja, “e no entanto ele vive”. Razão por que Dan Brown ainda não escreveu o seu novo romance. E espero que não escreva.
É, MUITAS VEZES, excessivo o tom de “Você na TV!”. Confesso que não sei se tem “!” ou não mas, pelo tom, devia até ter vários. Que se quer de um programa da manhã? Que seja um programa de companhia, como são geralmente designados, mas que não tenham os excessos de linguagem, que sejam histriónicos como este quase sempre é. Percebe-se que Cristina Ferreira, pela sua relativa juventude, se possa exceder. Que possa insistir em musiquinhas duvidosas, mas não se entende que Manuel Luís Goucha não lhe deite a mão logo em seguida. Parece-me que há, naquele programa, muita coisa a ajustar. Que aquilo não pode ser um improviso diário, porque se vai esgotar.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Dizia-me há pouco um amigo, referindo-se a uma pessoa próxima, já de alguma idade, que era conveniente que ela tivesse alguma actividade: por outras palavras, o clássico “parar é morrer”. Porque, dizia ele, a falta de actividade poderia ser fatal, como tantas vezes acontece. Mas acrescentava outra coisa, que era mais ou menos assim: “A sorte é que quando ela se senta, senta-se a ver televisão – e adormece.” Este é, de facto, um bom retrato da televisão que temos (exceptuando as naturais, mas escassas, excepções): o de um enorme soporífero, que actua 24 horas por dia, sempre a injectar-nos, por via auditiva ou visual, a dose necessária de “droga” para adormecermos. Calcorreio diariamente – literalmente –, como quem sobe uma série de calçadas íngremes e penosas, os diversos canais de televisão. Em todos eles paro uns momentos, como quem se detém a meio da calçada para recobrar o fôlego e sempre, tal como calcorreia a mesma rua, me deparo com as mesmas “lojas” e com as mesmíssimas “montras”, que é como quem diz com os mesmos programas e as mesmas caras. É caso para me queixar de uma pasmaceira quase insuportável.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4006, de 6 de Dezembro de 2013.

