Quando se tecem rodriguinhos inúteis
Bernardo de Brito e Cunha
HÁ QUATRO ANOS que os Gato Fedorento não voltavam à televisão, mais exactamente desde o tempo em que fizeram o muito bom (e diário) “Esmiúçam os Sufrágios”, na SIC. Voltaram na última sexta-feira com aquilo que tinham designado por “coiso” e, mais tarde, por “A Solução”. Tratava-se de arranjar uma solução para o país e, depois de vários estudos “aprofundados”, apresentaram a resolução do problema em 10 minutos. Bem sei que os programas, como os homens, não se medem aos palmos ou em minutos mas, mais do que ter ou não dado para perceber se tinha muita, pouca ou nenhuma graça, não foi esse o tema de conversa desde que o programa terminou. Nem tão-pouco a circunstância de alguém ter pago uma quantia que não deve ter sido pequena a Steven Segal, o “brutamontes da falinha mansa”. Nem isso nem o facto de o quarteto ter ido até à SIC – que, tanto quanto julgo saber, ainda é propriedade de Pinto Balsemão, que já foi primeiro-ministro deste país – e preconizar, como solução, uma sova de Steven ao (actual) primeiro-ministro e uma angariação de fundos via chamada de valor acrescentado para que o mesmíssimo Segal desse “um banano” em Paulo Portas. Para o restante elenco governativo, a solução apontava para que o problema fosse resolvido por Marco Borges, o famoso concorrente do Big Brother.
VISTO DESTE prisma, a coisa até resulta mediamente divertida, porque no fundo dar uma sova a Passos Coelho e um banano a Paulo Portas é aquilo que a maioria dos portugueses gostaria de fazer e não consegue lá chegar. Portanto, não é por aí: o grande problema, como diria Ezequiel Valadas, “o problema é que hoje não se pode dizer nada a essas florzinhas da imprensa”. E o maior de todos os crimes (que se lixe a graça ou a ausência dela) foi o facto de no meio dos quatro ter estado Rodrigo Guedes de Carvalho, a fingir que estava numa mesa redonda. Daqui d’el rei que Rodrigo não podia ter feito uma coisa daquelas, onde é que fica a sua isenção de jornalista, quando o virmos à conversa com outra pessoa? Exagerou-se, como é óbvio. Estrela Serrano, por exemplo, que já foi a alma da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, escreveu o seguinte: “Quando RGC voltar a falar-nos como jornalista ‘a sério’ na sua cadeira de pivô do Jornal da Noite haverá quem se pergunte qual o papel que nesse dia vai representar. A credibilidade é a fonte da legitimidade de um jornalista. Hipotecá-la assim parece leviano e sem sentido.” Por outro lado, o presidente do Observatório de Imprensa, Joaquim Vieira, escreveu no Facebook: “É oficial: já não há distinção entre jornalismo e entretenimento.”
E A COISA subiu de tom. Até que Pedro Tadeu, na sua coluna no Diário de Notícias, escreveu sobre o assunto. Com a devida vénia, reproduzo uma parte: “Um jornalista pode ter uma carreira construída a servir sociedades secretas em vez de servir leitores. Um jornalista pode esconder a sua preferência partidária e enganar quem o lê. Um jornalista pode omitir qual o clube do seu coração e simular isenção. Pode servir secretamente um candidato a primeiro-ministro e ir parar ao Governo. Pode escrever um milhão de notícias com base em fontes anónimas, não verificadas, destruir reputações e ainda ganhar prémios! Pode recusar corrigir publicamente os erros que comete. Pode, oh se pode, almoçar grátis com um pelotão de cobradores de almas.
“Um jornalista pode noticiar política sem ter lido a Constituição. Pode ser de cultura e nunca ter lido Os Lusíadas. Pode ser de Justiça sem saber a diferença entre Código Penal e Código do Processo Penal. Pode ser de economia e incapaz de calcular uma taxa de juro.
“Um jornalista pode, portanto, fazer da profissão uma palhaçada, não pode é parecer um palhaço.” E acho que disse tudo.
Não conheço Rodrigo Guedes de Carvalho, a não ser de o ver há 20 anos na TV e achar que é um jornalista “a sério”. E que, amanhã, continuará sério.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Comecemos por aquilo que mais fortemente marcará, por estes dias, a nossa memória: a detenção de Saddam Hussein. E marca porque vermos aquele que foi o homem mais poderoso do Iraque reduzido a uma condição (ou aparência) de miséria, de sem abrigo, é forçosamente perturbadora. Não duvido que esse aspecto seja verdadeiro: isto de uma pessoa ter escapado a atentados à bomba – atentados esses que forneceram a sua quota-parte de vítimas inocentes, diga-se de passagem –, andar fugida do exército norte-americano durante meses, não deve ser, como soe dizer-se, pêra doce. O cerco devia ser, de facto, muito apertado: ou então os 750 mil dólares que dizem ter sido encontrados junto a si teriam dado para sair do país. Saddam deve ter acreditado numa reviravolta qualquer, numa possibilidade mesmo que ínfima de voltar ao poder. E se a sua imagem, momentos após detenção, é altamente perturbadora, não menos inquietante são as perspectivas que se abrem, no futuro próximo.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4008 de 20 de Dezembro de 2013

