Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Abril 17th 2026

NADIR AFONSO: A MATEMÁTICA DA ARTE E DA VIDA

José Jorge Letria

O pintor, arquitecto e ensaísta Nadir Afonso, agora falecido, aos 93 anos, em Cascais, onde residia há muitos anos, dava uma ideia de fragilidade física que não permitia imaginar que a sua vida, sempre marcada pela paixão pelo trabalho, tivesse a longevidade que teve e que a todos proporcionou a longa presença na arte de um dos nossos maiores criadores e teóricos do século XX.
Conheci Nadir Afonso em Cascais, no princípio dos anos 90 do século passado, e tive oportunidade de conversar com ele muitas vezes, admirando profundamente a sua lucidez, a sua profunda cultura, o seu fino humor e o seu incessante e incansável trabalho de reflexão teórica sobre a arte. Enquanto vereador da Cultura da Câmara de Cascais propus que lhe fosse atribuída a Medalha de Mérito Cultural, distinção que muito lhe agradou.
Nascido edm Chaves em 1920, Nadir Afonso, apesar de ter vivido muitos anos no estrangeiro, designadamente em França e no Brasil, nunca perdeu a sua forte pronúncia transmontana, de que muito se orgulhava e que fazia parte da sua identidade profunda.
As andanças pelo mundo permitiram-lhe estudar e trabalhar com grandes nomes da arquitectura e das artes como Le Corbusier, Vasarely, Fernand Léger ou André Bloc. Foi um dos pioneiros do abstraccionismo geométrico em Portugal e também um ensaísta sobre as questões da estética e da criação artística com uma vitalidade e com uma originalidade assinaláveis.
Recordo-o sempre, muito magro e pálido, com passo curto e lento e com o seu boné branco a deambular por Cascais, principalmente junto do mar, reflectindo sobre as coisas da arte e da vida com uma lucidez e um brilho conceptual invulgares. Por vezes evitava cumprimentá-lo para não interromper as meditações em que o sentia envoilvido.
Tão rica foi a sua experiência internacional que, em São Paulo, fez parte da da equipa de Oscar Niemeyer, no projecto do Parque do Ibirapuera, que se transformou num dos pulmões da cidade e num dos seus mais activos centros artísticos, onde, durante anos, se realizaram as Bienais de São Paulo. Orgulhava-se muito desse projecto.
Apesar de ser muito discreto e avesso à feira de vaidade das homenagens e da exposição mediática, Nadir Afonso recebeu importantes testemunhos de reconhecimento nos últimos anos de vida, designadamente através de grandes exposições retrospectivas em que foi possível ficar-se com uma ideia da extensão, da diversidade e da importância da sua extensa obra.
A vida e a obra do artista ficaram também consagradas e registadas num filme do jornalista portuense Jorge Campos, com o título “Nadir Afonso: o Tempo Não Existe”.
No ano de 2009 foi apresentado em Chaves o projecto de Siza Vieira para a sede da Fundação Nadir Afonso, em construção. Por outro lado, Boticas terá em breve a funcionar na plenitude o Centro de Artes Nadir Afonso, cujo projecto de arquitectura recebeu já dois importantes prémios internacionais.
Cerca de três anos antes de falecer, Nadir Afonso deu uma longa entrevista a Luís Caetano, da Antena 2, em que falou da sua relação com a arte, com a vida e com a morte, sublinhando a sua ligação profunda ao pensamento matemático, a sua ausência de crença na transcendência do sagrado e a sua simpatia pelo niilismo como corrente filosófica.
Para além de ser um artista notável, Nadir Afonso nunca deixou de ser um pensador e um teórico, um filósofo das artes, deixando o essencial dessa reflexão em livros como “Nadir Face a Face com Einstein”, de 2008, ou “Manifesto: o Tempo Não Existe”, de 2010, documentos fundamentais para o conhecimento das linhas estruturantes do seu pensamento.
Continuarei a recordar a sua delicadeza, a sua presença sempre leve e discreta que nos levava por vezes a esquecer a solidez de uma formação estética, cultural e filosófica pouco comum entre os nossos artistas. Nunca o ouvi gabar-se da biografia que construíu e que foi das mais notáveis de todos os artistas portugueses do século XX. Nunca se deixou derrotar pela doença ou pela descrença, com a sua forte cepa transmontana e cosmopolita. Onde quer que se encontre agora, mesmo considerando-se um niilista, talvez esteja a descobrir alguns dos mistérios maiores da geometria do Universo, que sempre o fascinou desde criança quando fazia perguntas às estrelas no céu sem fim.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4008 de 20 de dezembro de 2013.

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