Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

A BESTIALIDADE DAS PRAXES E OS DIREITOS HUMANOS

José Jorge Letria

O debate sobre as praxes académicas parece estar relançado e só é desejável que, desta vez, tenha consequências, já que se trata de uma prática que deve ser analisada por vários ângulos, sendo um deles, o principal, a liberdade individual dos estudantes e o outro a própria vivência democrática dentro das universidades ? No fundo, falando disto é de direitos humanos que estamos a falar.
A pergunta básica é sempre a mesma: com que legitimidade um aluno ou aluna do segundo ano de um curso universitário, que nem sequer sabe se o vai terminar e se alguma vez encontrará trabalho compatível com essa habilitação, pode humilhar, agredir, sujar, conspurcar física e moralmente colegas que, sendo um ano mais novos, acabaram de se tornar caloiros ?
A minha geração universitária, em luta contra o fascismo e pela liberdade e pela democracia, abominava o praxismo universitário, que só em Coimbra mantinha alguma expressão.
A praxe foi-se tornando cada vez mais agressiva e aberrante com o passar dos anos, à medida que os estudantes deixavam de ouvir José Afonso e passavam a aplaudir Zé Cabra, que deixavam de se envolver nas grandes lutas da cidadania e se rendiam, à semelhança dos goliardos medievais, ao prazer do álcool e da boémia desenfreada, embora os goliardos fossem incomparavelmente mais cultos e libertários, bastando ler os textos por eles escritos e que Carl Orff utilizou para compor o genial “Carmina Burana”.
Como recentemente afirmava o Prof. Boaventura de Sousa Santos, grande sociólogo, a população universitária de hoje, naturalmente com excepções, trocou o interesse pela cultura, pela cidadania e pelo combate político pela prática etílica, por uma certa forma de niilismo e pela brutalidade praxística (cito-o de cor). A tropa de choque das praxes, que agride e humilha colegas nas ruas e insulta transeuntes e automobilistas junto das suas faculdades não é diferente dos núcleos mais duros e agressivos das claques futebolísticas radicalizadas, porque a brutalidade é sempre brutalidade e não merece outro nome.
Houve estudantes que reagiram contra as humilhações que lhes foram impostas e processaram os colegas agressores, mas tudo isto não passou de acções episódicas não acompanhadas pelos legisladores, talvez com medo de perderem votos dessa maioria que, em regra, tende a resvalar para a abstenção, até porque, as mais das vezes, está de ressaca até à hora do encerramento das urnas.
Como cidadão e espectador, não posso disfarçar a repugnância com que vi rapazes e raparigas quase com metade da idade dos meus filhos a cortarem os cabelos a colegas nas ruas, a pintarem-lhes as caras, a obrigarem-nos a rastejar, a grunhir e a zurrar ou mesmo a comer coisas que nem os animais comem só para afirmarem a sua alarve autoridade, para se exibirem perante as suas cliques de apoiantes e para manterem uma “tradição” que, racionalmente, só deveria envergonhá-los.E que nos envergonha.
Em boa verdade, o que se espera e exige dos estudantes mais velhos e experientes é solidariedade para com os mais novos, sobretudo em tempo de grandes carências, e nunca a bestialidade praxística.
É tempo de aprofundar o debate e de se legislar contra estas formas extremas do “bullying” que já levaram algumas vítimas ao suicídio, à depressão e à desistência dos estudos. A lei do mais forte não pode imperar.
Também por isso é importante que seja ouvido o único sobrevivente da tragédia do Meco, que enlutou várias famílias, até por ser pessoa activa e até preponderante no ritual praxístico de uma universidade. É urgente que se saiba mais sobre esta dinâmica de humilhação e embrutecimento que tanto dano e amargura causa a quem apenas reivindica o direito de não alinhar nas manifestações da alarvidade colectiva. O que pode depois o país esperar de advogados, médicos, engenheiros e gestores que ganharam estatuto no início dos seus cursos humilhando e espezinhando os direitos dos seus colegas mais novos e indefesos ? Também a este nível, sobretudo nos 40 anos do 25 de Abril, as regras democráticas têm de funcionar. Na realidade, estamos em presença de um problema básico de direitos humanos que não consente silêncios cúmplices ou levianas indiferenças.

Crónica publicada no Jornal de Sintra. Ed. 4012 de 31 de Janeiro de 2014.

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