Das pequenas diferenças de estatuto social
Bernardo de Brito e Cunha
NÃO ME SURPREENDE que Cavaco Silva tenha enviado a proposta de referendo sobre a co-adopção para o Tribunal Constitucional, que é uma opção sua: mas podia ter resolvido a coisa numa penada. Perdeu, assim, a oportunidade de mostrar trabalho, ao vetar a coisa. Ganhou tempo: o Tribunal Constitucional vai ter 25 dias para analisar as perguntas propostas para o referendo. Melhor dizendo, o TC vai ter de analisar as 36 palavras das perguntas em 25 dias – o que dá uma média alucinante de 1,44 palavras por dia. Depois, se tudo estiver bem, o Presidente tem 20 dias para resolver se sim ou se não. E aqui está uma outra maratona: vai analisar essas mesmas 36 palavras (que ele já saberá que estão bem) nos 20 dias seguintes, isto é, ao ritmo avassalador de 1,8 palavras por dia… Portanto, lá para finais de Fevereiro ou, na pior das hipóteses, em meados de Março, teremos novidades.
MAS CAVACO SILVA, que tem o projecto na sua mão há uma semana, podia ter mostrado serviço, podia ter-se mostrado dinâmico, podia (como escrevi acima) ter mostrado trabalho – e podia ter vetado politicamente o referendo. Até porque me parece (e a outras pessoas mais entendidas, note-se) que o papelinho que contém as duas perguntas não respeita as regras dos referendos, nomeadamente aquela que diz que um referendo pode ter “n” perguntas – mas todas sobre o mesmo assunto. Ora este papelinho trata de co-adopção e de adopção, que como se percebe são coisas profundamente diferentes. Mas Cavaco Silva optou por não ter uma atitude política (olha quem!) e adiou o problema. E depois admira-se de ir a Elvas assinalar (tranquilamente, pensava) o 10 de Junho e que um cidadão o mande trabalhar, à mistura com mais dois ou três miminhos…
Soube recentemente, de resto, que a queixa feita contra esse popular ainda se mantém, ao passo que em Julho do ano passado a Procuradoria-Geral da República arquivou o inquérito aberto contra Miguel Sousa Tavares por ter chamado “palhaço” a Cavaco Silva, considerando que essas declarações se enquadram no direito à liberdade de expressão do escritor e antigo jornalista. E o elvense, não tem direito à liberdade de expressão? Ah, é só para escritores e antigos jornalistas…?
PARECE-ME QUE a novela “Sol de Inverno”, exibida à noite na SIC e da autoria de Pedro Lopes, que já assinara “Laços de Sangue” (que ganhou um International Emmy Award em 2011) e “Dancin’ Days”, não é má: mas há ali qualquer coisa que me incomoda… A novela é, fundamentalmente, uma história de vingança entre Sofia (Rita Blanco) e Laura (Maria João Luís), embora haja, como sempre, milhentas outras tramas. Que acontece? Laura convence-se que Sofia tem um caso com o seu marido e forja documentos que indicam que Sofia e o marido tinham desviado dinheiro da empresa de que os dois casais eram sócios. Sofia e Álvaro são obrigados a fugir do país para não serem presos. Vão para Moçambique, onde Álvaro se suicida e depois de conseguir reequilibrar a sua vida, Sofia quer vingar-se. Pronto: até aqui tudo bem, é uma novela, etc. O que me incomoda é que a personagem de Maria João Luís seja a de uma mulher com status, bem vestida e com uma óptima imagem, ao passo que Rita Blanco (que já foi pobre em Moçambique mas entretanto recebeu uma chorudíssima herança) continua a ter pouco cuidado com a roupa e um aspecto de desgraçadinha de meter dó! Estou a exagerar um pouco, claro: mas basta olhar para o cabelo de uma e outra para se perceber que aquelas duas mulheres, que já tiveram estatuto semelhante enquanto sócias, neste momento não o têm. Maria João Luís tem um corte de cabelo interessante e arrojado, ao passo que Rita Blanco (e perdoem-me esta discriminação social…) continua a parecer, apesar do seu dinheiro, uma empregada doméstica um pouco desleixada.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Até parece que a RTP lê estas crónicas… É que a última gala da Operação Triunfo acabou por fazer aquilo que não fez (e que eu aqui tinha defendido) na homenagem a José Carlos Ary dos Santos: pegar nas suas canções e pôr os três vencedores a cantar algumas delas. Em dueto com três vencedores de festivais passados (Simone, António Calvário e Carlos Mendes) os três vencedores deram de novo vida às canções do poeta. Como já deveria ter sido feito.
E já que falo em festival, as minhas piores suspeitas confirmaram-se: o público não escolheu nem a melhor, nem sequer a menos má das canções a concurso – foi direitinho para aquela que nem merece o nome de canção. O que me deixa perplexo e me leva a crer que não votaram na canção, mas no intérprete.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra. Ed. 4012 de 31 de Janeiro de 2014.

