José Jorge Letria
Chegou ao fim o ano de 2013, seguramente um dos mais duros da nossa História contemporânea. Mais desemprego, mais fome, mais pobreza, mais emigração, mais cepticismo, mais injustiça social, mais violência doméstica e a crescente destruição de pilares da nossa identidade económica e comunitária são sintomas de uma crise que não dá sinais de poder regredir e ser ultrapassada.
Estamos mais tristes, com a nossa soberania mais hipotecada. Estamos cansados de uma luta que está apenas no começo. Estamos cada vez mais preocupados com o futuro dos nossos filhos e netos. Estamos angustiados e dependentes da vontade política e financeira de Berlim e de outras capitais e instituições poderosas.
O executivo que ainda governa Portugal atingiu um insustentável estado de fragilização que só aponta, racionalmente, para a necessidade da inadiável demissão e da mudança de ciclo. Porém, essa perspectiva, que se situa no domínio da saúde pública, continua distante, porque o Presidente da República é quem é e é como é, não sendo necessário caracterizar ou adjectivar aquilo que a esmagadora maioria dos Portugueses já percebeu há muito.
Entretanto, os ricos ficaram ainda mais ricos, compraram mais património imobiliário e carros mais caros, enquanto a penúria dos idosos se tornou quase obscena para um país democrático e membro de direito pleno da União Europeia. As escassas centenas de portugueses que possuem mais de 25 milhões de euros enriqueceram neste ano mais 11 por cento. Enquanto isto, vemos os CTT a serem alienados, designadamente para as mãos de um dos bancos que estiveram na origem da brutal crise desencadeada em 2008 em Wall Street, e os Estaleiros de Viana do Castelo a serem vendidos de forma muito pouco clara, destruindo postos de trabalho e pondo em causa um valioso património.
É assim que 2013 termina, com o misto de vergonha e revolta que caracteriza os sentimentos de quem se sente explorado, marginalizado e humilhado. Em Janeiro começa o ciclo comemorativo dos 40 anos do 25 de Abril, oportunidade única para se reavivarem memórias, para se federarem vontades e para renascerem esperanças num Portugal melhor. Claro que ninguém espera que este governo se demita ou se renda no Largo do Carmo, porque essa imagem faz parte de um outro tempo e de uma outra História, que afinal é sempre a nossa. Mas é urgente que se inicie um novo ciclo e que esse ciclo, até por razões simbólicas, comece no ano em que Abril completa quatro décadas. Vai ser difícil, sobretudo devido a uma conjuntura internacional que é altamente desfavorável à mudança e onde pontifica o dr. Durão Barroso, cujo percurso não esquecemos, mas é preciso que alguma coisa mude, não para que tudo fique na mesma como escrevia Tomaso de Lampedusa, mas para se reabram as portas e as janelas da esperança possível.
Este Portugal secular e orgulhoso do seu passado tem de recuperar o direito a ser soberano, próspero e livre, sem o fantasma de Miguel de Vasconcelos a ensombrar os nossos dias e a nossa vida colectiva. Mas se ele persistir nessa assombração, voltará a saltar pela janela. O que tem de ser tem muita força.
Acabamos 2013 com a amargura das pátrias encurraladas no beco mais sombrio e fétido de um destino adverso. Mas havemos de renascer das cinzas, fénix que somos de todas as adversidades, lembrando as palavras de José Carlos Ary dos Santos, falecido aos 47 anos, em 18 de Janeiro de 1984: “Isto vai, meus amigos, isto vai !”
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4009 de 10 de Janeiro de 2014

