Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

O dia em que voltámos a ser uma monarquia

Bernardo de Brito e Cunha

FOI ASSIM, sem golpe de estado, sem tiros sobre os ocupantes de um carro aberto, sem movimentos revolucionários preparados com antecedência. Houve, é certo, o hastear de uma bandeira na Câmara Municipal de Lisboa – e nem sequer foi a bandeira nacional que, ao que parece, havia um defeito no mecanismo. E no entanto, desde domingo que não se ouvia outra coisa pelas televisões – todas elas – que não fosse um mesmo grito. E não era o clássico “O rei morreu, viva o novo rei!”, era ligeiramente diferente: “O rei morreu! Viva o rei!”, sendo que um e outro eram o mesmo – e era Eusébio. Desde a morte de Amália, mais recentemente, ou desde o dia 25 de Abril de 1974 que eu não via um tal uníssono de transmissão entre os nossos canais de televisão. Nem mesmo, ouso dizê-lo, durante as visitas dos papas que vieram até cá, que foram transmissões de menores dimensões, ou transmissões pontuais, uma missa, uma bênção, etc. Portanto, nesta ordem de ideias, os três grandes “F” do antigo regime revelaram que dois deles eram maiores do que o terceiro, e o Fado e o Futebol parecem ter mostrado uma maior adesão televisiva, embora isso talvez não seja bem assim, em termos populares, no que toca a Fátima.

O BENFICA, naturalmente, quer prolongar a memória de Eusébio. Entre as diversas sugestões que vieram à baila e de que a do Panteão deve ter sido a primeira (o que envolve uma decisão da Assembleia da República), acontece que não se percebe bem para que serve o Panteão ou, melhor dizendo, nem todos os importantes estão lá: não esqueçamos que Luís de Camões, Fernando Pessoa, Vasco da Gama e mais uns tantos estão nos Jerónimos e, portanto, conviria primeiro esclarecer isso; a mudança de nome do estádio da Luz foi outra sugestão e que me parece boa; mas parece que o clube quer fazer uma outra coisa. Para além de querer prolongar o luto durante um ano, o que acho perfeito, o clube parece também querer substituir o seu emblema (pelo menos foi o que eu entendi) por uma imagem de Eusébio: e aqui a coisa já me parece mais estapafúrdia e julgo que o próprio Eusébio seria contra o tirar-se a águia das camisolas. Não seria mais prático criar uma nova camisola, em negro e vermelho (mais negro que vermelho, talvez) para usar durante esse ano de luto?

E ESTE PARÁGRAFO destina-se apenas àqueles que recebem a televisão através do cabo. Tenho evitado falar de programas que passam exclusivamente nesse sistema, porque são muitas as pessoas que não têm acesso a ele. No entanto, nos últimos tempos, esse número parece ter aumentado substancialmente, talvez fruto da fraca oferta de canais dessa coisa brilhante que é a TDT – mas não é disso que se trata agora. A figura de Sherlock Holmes parece estar novamente na moda e, neste momento, estão exibição no cabo duas séries sobre o famoso detective. “Sherlock”, que passa no canal AXN é uma recriação brilhante da figura de Conan Doyle. Vai agora na terceira série, sendo que cada uma delas apenas tem quatro episódios, de cerca de hora e meia, que são geralmente exibidos em duas partes. Benedict Cumberbatch é Sherlock Holmes e Martin Freeman o médico John Watson: diferenças em relação ao original? O facto de a acção se passar nos nossos dias e o de a realização dar especial atenção ao aspecto gráfico, com planos de 360º e muitas palavras a aparecerem escritas no ecrã. Por outro lado, na FOX, aparece “Elementar”: e aqui os detectives estão em Nova Iorque… Além disso, Sherlock (Jonny Lee Miller) faz-se acompanhar por Joan Watson (Lucy Liu): exactamente, uma mulher! Uma visão completamente diferente, mas imensamente divertida.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«E por isso, muitos como eu devem ter seguido a primeira emissão da 2:, que começou segunda-feira às 21 horas. Compreensível, este horário: se a velhinha RTP 2 fechou o seu exercício com 2,9 por cento de share, abrir a nova (?) 2: a uma hora em que não fosse já noite e muitos estivessem já em casa seria suicídio. E ponho uma interrogação na “nova” 2: porque aquilo que vi na noite de estreia, no dia seguinte com diversas incursões ligeiras para ver como estava aquilo, bem como a consulta da grelha de programação publicada na imprensa, me conduziu, surpreendentemente, a uma conclusão interessante. É que tirando os novos cenários, a nova cor de base (um verde que oscila entre o vómito e o fosforescente) e algumas caras novas, a essência do canal está imutável. Tem um Jornal da noite? Tem, embora mais cedo, às 21:30 e mais sintético, apenas com 30 minutos de duração. E tem “A Fé dos Homens”? Naturalmente que sim. E o “Bombordo”? Ora como não, se o ministro Morais Sarmento gosta tanto das coisas relacionadas com o mar? E cinema? Pois também, embora agora só uma vez por semana, às quintas, e mais voltado para as cinematografias portuguesa e europeia. Em resumo: nem se notam grandes diferenças – é certo que o logótipo mudou – nem tão-pouco se nota onde é que está, ali, a tal de sociedade civil.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4009 de 10 de Janeiro de 2014

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