Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 11th 2026

ARY DOS SANTOS 30 ANOS DEPOIS: OS SONHOS QUE ABRIL ABRIU

José Jorge Letria

José Carlos Ary dos Santos morreu no dia 18 de Janeiro de 1984, há três décadas, após alguns meses de enfermidade que muito o debilitaram fisicamente. Faleceu no dia em que se comemorava o aniversário da revolta dos operários da Marinha Grande, nos anos trinta do século XX.
Publicitário de profissão, Ary dos dos Santos mudou, com a exuberância do seu talento como poeta, a história da canção em Portugal. O seu primeiro parceiro de canções foi Nuno Nazareth Fernandes, antes de Fernando Tordo ter construído com ele uma parceria excepcional e irrepetível. Mas Ary construiu verdadeiros clássicos da música portuguesa com Alain Oulman e Paulo de Carvalho, entre muitos outros.
Genial criador publicitário, José Carlos Ary dos Santos trouxe para os textos das canções uma exuberância e uma imaginação verbais que nenhum outro autor português conseguiu até agora igualar.
Várias vezes vencedor do Festival RTP da Canção com temas como “Desfolhada”, “Menina do Alto da Serra” ou “Tourada”, Ary marcou aquele evento com outras grandes canções que se tornaram verdadeiros clássicos intemporais.
Mas o seu percurso poético autónomo foi pontuado com a publicação de livros como “Liturgia de Sangue”, “Endereços e Adereços”, Sofrimento In-Sofrimento” ou “Fotos-Grafias”, que continuam a lembrar-nos que Ary tem uma dimensão poética que excede o universo da criação de canções em parceria. Para além disso, há que destacar a forma como se envolveu politicamente, antes e depois do 25, actuando em comícios e festas do PCP e do movimento sindical e escrevendo textos de referência como “As Portas que Abril Abriu”, uma celebração épica do derrube da ditadura de quase meio século pelos Capitães de Abril.
Há 30 anos, o povo de Lisboa despediu-se de Ary dos Santos nas instalações da Sociedade Portuguesa de Autores e no cemitério do Alto de São João, onde ficou sepultado. Foi dos maiores funerais a que Lisboa assistiu, despedida comovida de um verdadeiro artista do povo que ganhava uma alma nova quando subia ao palco e partilhava como muitos milhares de pessoas a beleza, a virulência e o poder encantatório do seu verbo poético, sempre livre e sempre mobilizador.
Para mim que o conheci e fui seu amigo até à data da morte, urge redescobrir a sua obra poética sem preconceitos e dar-lhe o lugar que legitimamente lhe pertence na literatura portuguesa, bastando para tanto lembrar o último soneto que escreveu, despedindo-se da mãe já falecida, no dia 17 de Janeiro de 1984, um dia antes de morrer, ou a imortal “Estrela da Tarde”, criada a meias com Fernando Tordo e que é uma das mais belas canções de amor de todos os tempos, em Portugal e noutras latitudes.
Ary dos Santos era generoso, excessivo, truculento, sempre inspirado, apaixonado pela poesia, pela ideia de revolução e pelo público que projectava nele os seus sonhos, esperanças e utopias, fascinado com a sua força física e anímica e com o poder das suas mãos imensas que enfatizavam o que os poemas tinham de mais intenso e dramático.
Deixou a meio um percurso único que talvez só encontre paralelo, em contexto revolucionário, na obra do poeta soviético Vladimir Maiakovsky, como ele excessivo, genial e popular.
Ary dos Santos deixou ao PCP, partido de que foi militante até ao fim da vida, o seu espólio e os direitos da sua obra, sendo um dos símbolos da alegria, da festividade e da memória colectiva que se consolidou no pós-25 de Abril.
Prometeu deixar um livro de memórias intitulado “Da Estrada da Luz à Rua da Saudade”, mas muito pouco dele terá escrito, porque morreu prematuramente e porque tinha a mais em génio o que tinha a menos em disciplina. Esse título juntava o local onde nasceu com a rua onde morreu, mas exactamente no rés-do-chão do nº13 da Rua da Saudade.
Ninguém conseguiu preencher o vazio que ele deixou e eu imagino, porque o conheci bem e muitas vezes partilhei com ele a emoção do palco,a dimensão da sua indignação e protesto, no Portugal de hoje, se ainda fizesse parte do mundo dos vivos. Talvez por isso me apetece repetir os seus versos que, transmitindo confiança e energia combativa, diziam: “Isto vai, meus amigos, isto vai !”

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4011 de 24 de Janeiro de 2014

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