Dos disparates em geral e alguns em particular
Bernardo de Brito e Cunha
CONFESSO QUE começo a ficar farto com as repetições das lágrimas de Cristiano Ronaldo durante a atribuição da Bola de Ouro: a primeira vez foi emocionante, na medida em que nos mostrava que um atleta e um futebolista superior não abandonara a sua condição humana e se emocionava como qualquer de nós – com excepção, talvez, de Messi… O pior têm sido as repetições, ao ritmo de duas por cada jornal, seja da hora do almoço seja do jantar, que acabam por banalizar a coisa o que seria o pior que podia acontecer à imagem de Ronaldo. Como é óbvio, a condecoração recebida na última segunda-feira foi mais um pretexto para intensificar a repetição das imagens. Julgo que era bom fazer uma pequena pausa na emoção de Ronaldo. Para nosso bem mas, sobretudo para o dele.
PORQUE SERÁ que não me admiro? A segunda edição do programa “Casa dos Segredos” vai custar à TVI um processo contra-ordenacional, aberto pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), tudo por causa da difusão de imagens de cariz sexual sem o devido “sinal identificativo apropriado”. As queixas recebidas na entidade relativamente aos conteúdos exibidos pelo programa já remontam à primeira edição, tendo a estação na altura sido admoestada, mas a frequência das mesmas levou a ERC a efectuar uma análise à segunda edição do programa. “Ao longo de todo o programa é recorrente a referência a episódios de sexo entre um dos concorrentes masculinos – Carlos – e duas concorrentes femininas – Cátia e Cleide. O assunto foi discutido pela apresentadora com os vários concorrentes que se deslocaram ao confessionário”, diz a deliberação da ERC, que ainda acrescenta os horários “em que as imagens de supostos actos sexuais foram transmitidas”.
E QUE DIZER do facto de o Parlamento ter aprovado na última sexta-feira, com os votos favoráveis do PSD, que impôs disciplina de voto, o projecto de resolução de deputados sociais-democratas (membros da juventude do partido, aliás), que propunha um referendo sobre co-adopção e adopção de crianças por casais do mesmo sexo? No final da votação, vários elementos da bancada do PSD apresentaram declarações de voto (como se isso limpasse aquilo que tinham acabado de votar) e a vice-presidente do grupo parlamentar, Teresa Leal Coelho, que não esteve presente no momento da votação, apresentou a demissão do cargo. A informação foi revelada aos jornalistas pelo líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, que diz que Teresa Leal Coelho tinha uma “posição contrária à decisão do grupo parlamentar sobre a matéria”. E aqui tenho de tirar o chapéu a Teresa Leal Coelho, de quem não gosto e de cujas opiniões discordei a maior parte das vezes. Só que, desta vez e neste caso, Teresa Leal Coelho mostrou aos seus colegas de bancada que é como Cristiano Ronaldo: também tem duas Bolas. E eles não…
Estabelece a lei do referendo que “O Tribunal Constitucional procede à fiscalização e apreciação no prazo de 25 dias, o qual pode ser encurtado pelo Presidente da República por motivos de urgência”. Se for declarada a inconstitucionalidade, o texto é devolvido à Assembleia da República, que pode reapresentá-lo, expurgado das inconstitucionalidades. Se o Tribunal Constitucional considerar que o referendo sobre o tema é conforme à lei fundamental, cabe ao Presidente da República decidir se convoca ou não a consulta pública, no prazo de 20 dias após a publicação da decisão dos juízes.
As perguntas que deverão constar do referendo são: “1. Concorda que o cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo possa adoptar o filho do seu cônjuge ou unido de facto? 2. Concorda com a adopção por casais, casados ou unidos de facto, do mesmo sexo?”. Concordo com tudo: só gente pequenina precisa de um referendo – que vai custar nove milhões de euros.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Vi aquela espécie de tributo a José Carlos Ary dos Santos, que Júlio Isidro se apressou a explicar que procurava relembrar o poeta e autor de canções que marcaram uma época, no 20.º aniversário da sua morte. Diversos convidados, todos a dizerem coisas bonitas e simpáticas: mas coloquei-me do lado de fora, imaginei Ary dos Santos sentado a meu lado, a assistir ao programa e o resultado não foi bom. (…) As canções, aquilo que o tornou conhecido, foram reduzidas a meros excertos colados aos dois e três. (…) Já que muitas das canções eram de festival da canção, porque não pegar em meia dúzia de alunos da Operação Triunfo (que fizeram isso mesmo na última gala), e pô-los a cantar Ary dos Santos? Teria dado, acho eu, a Ary dos Santos, à sua poesia e às suas canções, o ar de perenidade que possuem. E de certeza que Ary teria ficado bem mais contente, ao ver que as suas canções e os seus poemas tinham passado para outra geração – e que, só por isso, continuava vivo.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4011 de 24 de Janeiro de 2014

