Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Algumas coisas perturbadoras, mas não muito

Bernardo de Brito e Cunha

DUAS COISAS apenas sobre o jogo do Benfica e do Porto. Em primeiro lugar, a circunstância de os benfiquistas não terem embandeirado em arco e não terem andado para aí aos gritos, como se tivessem conquistado alguma coisa… Como de resto o presidente (do clube, naturalmente) referiu, “foram apenas três pontos” e, de facto, não se justificava terem reservado o Marquês. Talvez os benfiquistas tenham aprendido alguma coisa desde a época passada, o que é muito positivo. A segunda coisa tem a ver com aquela coisa notável e que não me lembro de ter visto muitas vezes antes, e em muito poucos lugares do mundo: o facto de, nesse jogo, vestindo de vermelho, terem estado 11 Eusébios, tal como em Fevereiro de 2004, no jogo do Benfica contra a Académica, os jogadores também se terem apresentado com 11 camisolas onde se podia ler Fehér, o jogador húngaro falecido em campo pouco tempo antes. Mais aborrecido foi o papel dos partidos políticos, a atropelarem-se e a agarrarem-se a Eusébio para tentarem ser os primeiros a propor a ida do seu corpo para o Panteão… Mas isto com políticos já se sabe como é: “não se pode ser bem em tudo,” como diria um pensador da nossa praça.

ESTAMOS HABITUADOS a ver os portistas a fecharem fileiras e até exacerbarem treinadores e dirigentes, sobretudo quando os resultados não são famosos: é o que acontece geralmente com Miguel Guedes, no “Trio d’Ataque”, mas não foi o que aconteceu com Manuel Serrão no “Prolongamento” da TVI24, que mostrou uma “confiança cega” no treinador do FC Porto, Paulo Fonseca. Estava a citá-lo, como uma venda nos olhos, mas foi mais além, nomeadamente quando disse que tinha uma confiança cega na conquista da Liga dos Campeões (de que o Porto já foi eliminado), ou “se não for este ano será para o próximo”… Mas o carinho (?) que Manuel Serrão parece nutrir por Paulo Fonseca ficou bem explícito quando disse que “tenho uma confiança cega que Pinto da Costa vai manter o treinador para o ano”… Mimos…

E JÁ QUE desde a semana passada aqui falei de raspão de duas séries que acho de grande nível, ambas recriando a figura de Sherlock Holmes nos nossos dias, também quero deixar um aviso a todos os que se preparem para ver a série dramática norte-americana, criada por Kevin Williamson, “The Following”, que julgo que nem teve título em português mas que se poderia traduzir por “O Culto”. Confesso que a série começou por me atrair por ser protagonizada por Kevin Bacon – vim mais tarde a saber que aceitou o papel por já estar há muito tempo sem trabalho… e porque as premissas iniciais prometiam bastante. Por um lado um ex-agente do FBI e um serial killer que cria uma rede de seguidores enquanto está preso, e o recurso muito intenso à obra de Edgar Allan Poe, de onde são extraídas a maior parte das pistas. Vi os 15 episódios da primeira série (que parece que terá continuação), mas ao sétimo já estava pelos cabelos… Sem querer estragar o prazer de quem, eventualmente, estiver a seguir a série, digo-vos que nunca vi uma história em que o FBI, os Marshalls dos Estados Unidos e todas as forças da ordem aqui envolvidas fossem tão ineptas. Basta dizer isto: é necessário tratar de alguma coisa que está a 45 minutos de distância? Pois nesta série percorrem-se os 45 minutos de carro – os helicópteros chegam sempre depois…

DEPOIS DE algumas ocasiões em que “O Preço Certo” de Fernando Mendes me apareceu, no top 5 que a Marktest fornecia através da sua aplicação para telefone, entre esses mais programas mais vistos de vários dias, chegou um em que, para minha surpresa, o programa de Fernando Mendes ocupava o primeiro lugar. Tinha batido toda a concorrência, incluindo “Casa dos Segredos” e novelas e telejornais… Fiquei sem perceber: tinha sido um programa especial com o elenco de “Bem-vindo a Beirais”, mas será que isso explica tudo?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Admito um compacto de uma novela, que tem, efectivamente, muitos pontos mortos (ao longo dos muitos episódios) e onde é fácil apresentar o essencial. Mas numa série que teve originalmente, se a memória não me falha, cinco episódios, o problema é mais complicado: será que metade era dispensável? A série “O Processo dos Távoras” foi inicialmente exibida em 2002 e, lembro-me, sempre às terças-feiras e em confronto directo com o “Big Brother” da TVI. (…)
Admitamos, como já aqui o fiz no passado, que a série “O Processo dos Távoras” é uma grande série – coisa que, de facto, acho que é e que até os próprios Globos de Ouro da SIC, no ano passado, acabaram por reconhecer. E interrogo-me como é que alguém foi capaz de se lembrar de a pôr no ar exactamente no mesmo dia em que, na TVI, há o especial do “Big Brother Famosos”? Ninguém, a não ser alguém da RTP.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4010 de 17 de Janeiro de 2014

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