José Jorge Letria
Sobre Eusébio da Silva Ferreira, falecido em Lisboa aos 71 anos, já tudo foi dito e escrito, na sequência da sua morte, que tanta e tão justificada consternação causou em Portugal e em todo o mundo do futebol em vários continentes.
Eusébio, há alguns anos afectado por problemas de saúde que não faziam prever este súbito e trágico desfecho neste começo de 2014, não escreveu memórias e não disse frases que tenham resistido à voragem do tempo, mas, em contrapartida, marcou alguns dos belos golos de toda a história do futebol e foi um dos mais geniais, criativos, velozes, pujantes e completos futebolistas de todos os tempos.
Viveu num tempo em que não se faziam fortunas com a venda de um passe ou o nome e o rosto contratados para campanhas de publicidade. Viveu num tempo em que as bolas eram mais pesadas e incertas, em que não havia o sistema de substituições que hoje existe durante os jogos e em que era preciso ser mesmo muito grande para se conseguir conquistar em vida o estatuto de lenda, de herói e de mito. E ele conquistou-o.
Portugal inteiro mobilizou-se para assumir o luto pela morte do Eusébio de todos nós. E porquê ? Porque Eusébio era um homem simples, um homem bom, alguém vindo do povo, do seio de uma família de muito poucos recursos em Moçambique e porque, em campo, foi sempre educado, solidário, estoico na resistência à dor e incapaz de retaliar quando o atingiam intencionalmente nas zonas já lesionadas e que tanta dor lhe causavam.
Tive a sorte de o ver jogar em vivo várias ocasiões, praticamente desde a sua chegada a Portugal (então Metrópole de um agonizante império colonial), e de ter mantido com ele muito breves conversas em momentos quase sempre marcantes da história do Benfica. Também escrevi sobre ele e sobre a sua vida um livro para crianças, publicado há cerca de dois anos, para além de algumas letras de canções. Ainda me recordo do dia em que, no princípio do Verão de 1966, me enchi de coragem para lhe pedir um autógrafo, na esplanada do Hotel Baía, em Cascais, onde a Selecção Nacional estagiava antes de partir para o Mundial em Inglaterra, que o celebrizou para sempre.
Num momento em que a monarquia a si própria se envergonha e mancha com situações como a que vive a família real espanhola, apetece chamar-lhe “rei”, porque, de facto, reinou num domínio em que soube fazer história e ser, com plena legitimidade, o melhor de todos, sem mácula nem “esquemas”.
Num momento em que a promiscuidade entre a política e os grandes interesses financeiros levam Vítor Gaspar a aceitar um convite de Angela Merkel para ingressar no FMI, com o qual negociou em nome de Portugal, cedendo a tudo o que lhe foi exigido, e José Luís Arnaut vai trabalhar (imagine-se !) com o sombriamente famoso branco Goldman Sachs (com o qual colaborou, por exemplo, no processo de privatização dos CTT), um dos responsáveis pela crise que o mundo enfrenta desde 2008, apetece depositar flores na estátua de Eusébio, dar o seu nome à nossa rua, rever os seus golos antológicos e perceber que a única riqueza que verdadeiramente conta é a de carácter, a do talento e a da simplicidade que comove e conquista.
Para além disso, há Portugal e os Portugueses, humilhados e tristes, com a soberania espezinhada, que precisam de heróis e de valores que os unam e mobilizem para os muitos combates que ainda falta travar. Eusébio teve e tem todos esses méritos e virtudes, e por isso o conservamos vivo no nosso coração, por termos sido grandes com ele e por sabermos que não havia lesão ou arbitragem injusta que o derrotassem. Nesse Panteão já ele tem, com mérito pleno, lugar cativo, sem ser preciso que a presidente da Assembleia da República puxe da calculadora para ver quanto custa a trasladação. Então e a Assembleia da República, e o Parlamento Europeu, e os assessores ministeriais, e tudo o mais ?
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4010 de 17 de Janeiro de 2014

