Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Agarrem-me que ainda parto o aparelho!

Bernardo de Brito e Cunha

UMA SEMANA DEPOIS, ou coisa como isso, da estreia de “Queridas Manhãs”, da dupla Júlia Pinheiro e João Carlos Rodrigues, percebo que, grosso modo, as audiências do programa subiram uns 100 mil espectadores. É bom, naturalmente, ver que os investimentos feitos deram algum retorno – mas convém não esquecer que ainda falta caminho para chegar aos vizinhos do lado, como lhes chamei, e que isso implica mais, bastante mais. Convém agora a Júlia Pinheiro, que tem experiência nestas coisas, decidir o que fazer para endireitar de uma vez aquelas manhãs. Para mim, já o disse, a coisa passava por um refrescar de comentadores residentes. E, naturalmente, equilibrar os convidados que, todos o sabemos, pendem para o choradinho. O bom, tradicional, choradinho português.

MAS FALAR NISSO obriga a passar para o canal do lado, onde as tardes são ocupadas por aquela que eu designo, cá em casa, como “a profeta da desgraça” – Fátima Lopes. A jovem senhora convida uma pessoa para ir ao programa? Então já se sabe: essa pessoa teve uma doença incurável (e malgré tout, curou-se), ou foi vítima de injustiça social ou, ainda, atravessa um período da vida que não corresponde aos standards a que estava habituada. Fátima Lopes trouxe para a televisão a sua muito particular versão de Álvaro de Campos, e lá encontramos os que estão “ao lado da escala social,/ os não adaptados às normas reais ou sentimentais da vida / Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,/ Não ser pobre a valer, operário explorado,/ Não ser doente de uma doença incurável,/ Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,/ Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas/ Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lágrimas,/ E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor”. Depois temos combinações de tudo isto, a mistura da primeira com a última, a segunda e a terceira, eu sei lá! E para todos ela põe o mesmo ar compungido, o mesmo ar de solidariedade que se lhe vê ao nível da boca apertada, os lábios numa linha de consternação e angústia: porque Fátima Lopes, tal como Campos, também exclama “Não: tudo menos ter razão!/ Tudo menos importar-se com a humanidade!/ Tudo menos ceder ao humanitarismo!”.

SE POR ACASO estou ligado na TVI depois de almoço, a primeira coisa que faço é ir buscar os lenços de papel: e, as mais das vezes, uma caixa não me chega para uma tarde. Felizmente que ela esteve doente (coitada da rapariga, até parece mal escrever isto) e foi substituída por outras pessoas, com predominância para Iva Domingues. Esta última foi bem melhor: é certo que não escapou aos agendamentos da produção do programa e apanhou as mesmíssimas pessoas para quem Fátima poria o seu ar compungido, o mesmo ar de solidariedade que se lhe vê ao nível da boca apertada, os lábios numa linha de consternação e angústia, mas tratou-as de forma diferente. Sem ar compungido, mas interessada no problema humano. É um mundo de distância. Mas para melhor.

TERMINOU O PROGRAMA de cantorias na SIC, o “Factor X” – e em boa hora, que eu já não podia! A rapariga dos Açores lá voltou para a ilha, o jovem rapper foi escrever as suas letras para a sua rua e pronto, ganhou Berg, para satisfação da jurada Sónia Tavares. Sinceramente, pensei que fosse ganhar o jovem D8, mas faz sentido que tenha sido o outro: o jovem tem mais tempo pela frente, enquanto para Berg a hipótese de gravar um disco só seu, talvez não se pusesse nunca. E não estou a ver a Sony Portugal a gravar um disco de rap… Mas isso sou eu, que sou mauzinho.

ENQUANTO ISSO, do outro lado das televisões comerciais, a TVI estreava uma coisa que me pareceu cruel: “A Tua Cara Não Me É Estranha – Kids”. O programa começou logo a eliminar 50 porcento dos concorrentes: e isso, para miúdos de 10-12-13 anos não me parece fácil. Sabemos nós, que somos adultos, como nos é difícil encaixar os “não” que a vida nos dá… E só Mico da Câmara Pereira teve uma palavra sensata e inteligente a esse respeito. E depois, por que fazer um programa com miúdos ao domingo à noite, a terminar à uma da manhã? Desmaquilha, tira fatos, volta para casa e são três da manhã: no dia seguinte, segunda-feira, ninguém tem aulas?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Eu sei que as intenções não servem de desculpa para quase nada e, muito menos, para a SIC tirar do seu horário “Kubanakan” e, em vez dela, colocar uma novela portuguesa. Ou melhor: fosse essa novela portuguesa uma coisa e pêras, e já não estava cá quem falou. Mas… “O Jogo”???? Uma novela que, logo no seu primeiro episódio, nos mostra os membros de uma família a dirigirem-se para um funeral em Álcacer (seria?), cada qual no seu carro e depois, já todos reunidos, abandonam em pleno cemitério pelo menos um dos veículos em que se deslocaram? E que fazemos nós se não rir? E que crédito nos dá esta produção, que não deu pelo facto de ter perdido um carro pelo caminho? Pouco ou nenhum.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4014 de 14 de Fevereiro de 2014

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