Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

O LODO DE WALL STREET

José Jorge Letria

Está nos cinemas (pelo menos nos que ainda não fecharam por falta de público) o último filme de Martin Scorsese intitulado “O Lobo de Wall Street”, baseado na história mais do que verídica de Jordan Belfort, um corretor de Wall Street que, na senda de outros especuladores financeiros, construiu uma fortuna gigantesca assente na fraude, no engano, na ganância e na mais absoluta falta de escrúpulos no qiue toca à relação com os investidores e com o mercado.
Trata-se de um dos bons filmes de Scorsese, talvez demasiado longo para contar a história de um homem, representado magistralmente por Leonardo Di Caprio( seu actor fetiche), que, vindo de uma família da classe média baixa, percebeu, com um excepcional talento de vendedor, que estava em condições de vender tudo, sobretudo ilusões, por ser bom conhecedor da natureza humana e por saber que não existe maior aliado para um grande especulador do que a ganância e a sede de lucro do cidadão comum, sempre disposto a tudo para conseguir fortuna rápida e alguns fugazes minutos de fama.
Em larga medida, o filme é uma metáfora trágica, com tempero de comédia, do que é o capitalismo selvagem, a economia de casino, desregulada e trituradora, e, de certo modo, o próprio “american way of life”, que impôs ao mundo, há mais de dois séculos, uma regra de ouro vinda do garimpo, da conquista, do gigantismo das grandes indústrias e empresas que pode resumir-se nestas breves palavras: só vales socialmente se triunfares; se fizeres parte da legião dos derrotados, é melhor nem te dares a ver.
Por isso decidi trocar, no título desta crónica, a palavra “lobo” pela palavra “lodo”, porque esta representa o que é viscoso, o que faz escorregar e cair, o que deixa nódoa e conspurca os corpos e as almas. Na realidade, estamos aqui perante o lodo de Wall Street ao seu melhor nível. Estamos perante o retrato de uma sociedade que, sobretudo, em consequência da crise imobiliária de 2008, lançou o mundo numa situação angustiante e sem horizonte de esperança e recuperação.
O capitalismo e o mundo ocidental convenceram-se, após o colapso clamoroso do bloco soviético, que a lógica iria ser unipolar, que a “pax americana” talvez fosse para mil anos e que tinha triunfado definitivamente, sem margem para dúvida ou contestação, a dinâmica da especulação triunfante, da vitória dos mais fortes e ardilosos sobre os mais fracos e indefesos e que quem roubasse com habilidade e destreza ainda seria socialmente consagrado, sobretudo se deslocasse parte dos seus lucros não controlados para obras de solidariedade.
Depois foi o que se se viu, começando pelos próprios Estados Unidos, onde cidades de referência da indústria capitalista triunfante como Detroit se transformaram em cidades-fantasma e onde outras, atingidas por grandes cataclismos, como Nova Orleães, puseram a nu a corrupção e a incapacidade de resposta do sistema a situações de catástrofe. O país mais poderoso do mundo pôs em amarga evidência as suas contradições e vulnerabilidades e o próprio Barack Obama, para não provocar rupturas no sistema, integrou na sua primeira Administração alguns dos responsáveis pela crise de 2008, que talvez devessem estar na cadeia em vez de estarem na Casa Branca a assessorar o Presidente.
Tem sido este lodo de Wall Street, que também envolveu políticos em muitos países e levou alguns deles, incluindo portugueses, a tornarem-se figuras proeminentes do sistema de rapina e especulação financeira, que sentimos debaixo dos pés a empurrar o mundo para o abismo, a matar os valores da solidariedade, a servir de base doutrinária e estímulo reconfortante ao ultra-liberalismo de governos como o português e a fazer-nos pensar que o sistema está podre e que terá de ser encontrada uma nova forma de fazer política, de dar voz aos cidadãos e de garantir que os nossos filhos e netos têm uma garantia de futuro, num mundo onde os ricos não sejam escandalosamente ricos e os pobres escandalosamente pobres.
É este lodo de Wall Street que tem de ser removido, em nome do futuro da democracia e da liberdade, antes que os “descamisados” que o capitalismo selvagem empurra cada vez mais para a valeta se rendam ao imperativo de consciência e sobrevivência que os leve a tomar de novo a Bastilha onde estão acantonados os lobos da ganância e da voracidade do lucro, cujo prazo de validade está claramente a chegar ao fim. É tudo uma questão de tempo e de correlação de forças.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4014 de 14 de Fevereiro de 2014

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