Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

ANDRÉ BRUN E A MEMÓRIA DE PORTUGAL NAS TRINCHEIRAS

José Jorge Letria

Portugal entrou na I Grande Guerra em 1916, mas estando já este ano a ser assinalado o centenário daquele conflito, faz sentido que se recordem os portugueses que ali combateram, que perderam a vida ou foram heróis, podendo a evocação ir do Soldado Milhões a André Brun.
André Francisco Brun, de ascendência francesa, nasceu em Lisboa em 1881 e morreu na mesma cidade em 1926, poucos meses após o golpe militar e que instaurou uma ditadura de décadas. Foi um notável humorista, dramaturgo, guionista de cinema e cronista de jornais, sempre com o olhar atento aos hábitos, tiques e aspectos risíveis da pequena-burguesia lisboeta, que tão bem conhecia. Na carreira militar atingiu a patente de major e veio dos campos da Flandres com louvores, distinções e com a Cruz de Guerra, condecoração que poucos alcançaram.
Dessa experiência única e traumática, retirou o material para escrever “A Malta das Trincheiras”, uma memória de guerra que traz a marca do grande cronista e humorista. Nunca André Brun se deixa resvalar para a lamechice ou para o tom melodramático, sendo sempre fiel ao seu registo natural que o tornou famoso na sua época.
Ao contrário do notável livro de Jaime Cortesão, oficial médico na I Grande Guerra, que relata uma verdadeira descida aos infernos dos homens do Corpo Expedicionário Português na Flandres, André Brun constrói uma anti-epopeia, na qual há, naturalmente, lugar para o sofrimento e para a morte, mas também para o burlesco. E ele sabia, como ninguém, preservar e aprofundar esse registo, construindo uma narrativa ímpar sobre a tragédia da I Grande Guerra. “A Malta das Trincheiras” vai ser reeditado muito em breve por iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores, de que André Brun foi um dos fundadores, em 22 de Maio de 1925, cerca de ano e meio antes de morrer prematuramente.
Brun foi autor de verdadeiros clássicos do teatro e do cinema portugueses da primeira metade do século XX, como é o caso de “A Vizinha do Lado”, que transformou em guião cinematográfico, ou “A Maluquinha de Arroios”, que Alice Ogando, a sua viúva, depois adaptou ao cinema. O escritor deixou vários livros e crónicas e de textos humorísticos, demonstrando que também da adversidade se pode rir, desde que esse riso humanize, liberte e não impeça a solidariedade com quem sofre.
André Brun foi um dos escritores, jornalistas e artistas plásticos portugueses que estiveram nos campos de batalha de I Grande Guerra e a memória que com ele trouxe materializou-se em “A Malta das Trincheiras”, um livro que vale pena descobrir ou redescobrir, porque o momento é de revisitação e porque a situação instável do mundo em que vivemos nos dá tudo menos segurança em relação a um futuro de paz.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4018 de 7 de março de 2014

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