Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Tristezas de que não me liberto

Bernardo de Brito e Cunha

NÃO AGUENTO (nem conheço quem possa aguentar) as reportagens especiais que servem para preencher os telejornais. Algumas até são interessantes e bem-feitas – não falo do exagero das múltiplas reportagens, quase diárias, sobre as praxes e o Meco – mas acontece que depois, eu seja ceguinho, as voltamos a ver nos dois serviços noticiosos que se lhe seguirem. Isto é o mínimo: porque se um dia o tema de uma dessas reportagens especiais voltar à baila, é certo e sabido que será mostrada mais uma vez – e, nessa altura, com a data da transmissão inicial…

MAS HÁ REPETIÇÕES que não perturbam… muito. Falo, por exemplo, de “Equador”, que não me importaria (julgo…) de ver todos os anos. Não é o caso: a TVI repôs, perto da uma da manhã (depois de uma maratona de novelas), uma série que em finais de 2009, ano da sua estreia, tivera honras de horário nobre. E não era uma novela nem seu parente, como foi o caso de “Equador”, nem concurso nem reality show. Chama-se “Ele É Ela” e é uma série de ficção, uma comédia sobre um mulherengo (Marco d’Almeida) que dá por si transformado em mulher (Benedita Pereira) como vingança de uma conquista casual, uma mulher que desenvolveu uma fórmula científica que permite a mudança de sexo. O mais curioso neste pseudo-nacionalismo de que a TVI parecia acometida, esta “ficção nacional”, por assim dizer, é na verdade, e à imagem de “Anjo Selvagem” ou de “Floribella”, uma adaptação de um formato latino, no caso a comédia argentina “La Lola”. Quererá isto significar, por parte da TVI, que não há argumentistas portugueses capazes de terem boas ideias para ficção portuguesa que não sejam novelas? Ou porque parece ser mais seguro apostar num formato estrangeiro? A verdade é que as audiências não mentem: e quando as pessoas preferem “Conta-me como Foi” (adaptação de um original espanhol) a “Liberdade 21”, que era um original português e bem feito, parece que a TVI tem toda a legitimidade para fazer o que faz. Mas isso levanta ainda um outro problema: comprar os direitos de uma série e adaptá-la deve sair incomparavelmente mais barato do que encomendar uma ideia e uma série a um autor português. Que o digam os sul-americanos e outros consumidores de televisão por esse mundo (já não me lembro quais), onde a série “Equador” foi dobrada.

MAS VOLTEMOS a “Ele É Ela”. Até porque andámos (andaremos) nisto seis meses, com a fulana em que foi transformado a assumir as suas funções de director numa revista. E, de repente, como se não soubessem que rumo dar à coisa, vêm com uma invenção antiga que dava pelo nome de “Você Decide”. Que mais tarde foi usada para escolher quem saía e ficava no “Big Brother” e coisas do género. E então a TVI decidiu que o espectador, mediante uma módica quantia de uma chamada telefónica, é que ia resolver se ele continuava mulher, ou se voltava à sua condição de macho latino. E, depois de contas feitas (foram mesmo?) a vingativa mulher do princípio… ora, não conto, que a série ainda terá mais uns tempos de vida e, também, porque nesta repetição provavelmente isso não se notará. Mas garanto que a ideia, que o cinema e a televisão já trataram (bem) inúmeras vezes, desta feita vai acabar de forma chocha. E é pena, porque Benedita Pereira teve aqui um desempenho muito bom e extremamente divertido.

E ESTA SEMANA tive um choque: a notícia de que a RTP, televisão pública, vai brevemente ocupar as noites de sábado (sábado, em que se consome muito menos televisão do que nos outros dias??) com uma adaptação de um formato israelita (isso: de Israel) de mais uma coisa que me cheira a disparate: “Eu Consigo Fazer Isso”, apresentado por Marco Horácio. Soa-me muito a um conjunto de números de circo quando nem sequer estamos no Natal. Mesmo sem ver já estou de pé atrás: é que não me parece que seja a dar o flanco desta maneira que a televisão pública conseguirá crédito. E precisa dele: quem não ouve, todos os dias, a frase “É para isto que temos de pagar uma taxa de televisão camuflada?” O senhor Ponte devia voltar para as cervejas – tal como o senhor Lima – que isto cada qual é para o que nasce.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Tal como prometido a semana passada e valendo-me dos dados da Marktest, que em matéria de audiências televisivas é quem tem a última palavra, eis os dados relativos à famosa festa de aniversário da TVI e dos “muitos” milhões que, no dizer da estação, a seguiram pela televisão. A festa, a partir do Centro Cultural de Belém foi transmitida pela TVI a partir das 21 horas e 24 minutos prolongando-se durante 3 horas e 22 minutos, contando com a participação da maior parte das caras da TVI que são mais familiares ao grande público. Mas acrescenta a Marktest, pormenorizando os números, que a transmissão do programa “TVI 11 Anos” obteve uma audiência média de 14,1 por cento (apenas mais de 1,3 milhões de indivíduos, em média, contra os mais de 4,3 milhões propagandeados pela estação), e um share de audiência de 43,1 por cento. Foi certamente com este número que a TVI fez as suas contas: mas isso foi uma operação tosca de merceeiro (que me perdoe a classe), porque não se podem misturar alhos com bugalhos ou cebolas com batatas…»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4017 de 7 de Março de 2014

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