Casos de perfeito contraditório
Bernardo de Brito e Cunha
À FALTA DE grandes programas que nos dêem verdadeiras razões para falarmos e, até, para nos regozijarmos, lá estamos condenados a falar de televisão através das pequenas coisas – ou até pequenas grandes coisas que são bem mais importantes do que parecem. Tudo começa com um movimento da Informação da RTP: a troca de Cristina Esteves por José Rodrigues dos Santos para o espaço de comentário de José Sócrates. Que acontecera até aqui? Cristina é muito bonita, super simpática e deixou José Sócrates à larga para poder abrir o livro. E, digamo-lo em abono da verdade, por vezes deixou-o até abrir diversos livros, que não apenas aquele que era o da norma do programa – comentar as principais notícias políticas da semana – e permitiu que ele se afastasse com grande largesse desse tema que julgo estar mais ou menos predefinido. Com essa mudança de interlocutor, operada este último domingo, mudaram também essas regras. Ou assim parece.
NÃO FOI um espaço de comentário habitual, como os dos canais de televisão que apresentam políticos (ou ex-políticos) a fazerem de comentadores. No espaço de José Sócrates, que a RTP transmite aos domingos, o jornalista José Rodrigues dos Santos decidiu ir buscar os seus “arquivos” (notícias de 2010 e 2011) para confrontar o ex-primeiro-ministro socialista com afirmações suas perante o comentário da actualidade, mais ao jeito de entrevista que de comentário. “Não vinha preparado para isto”, desabafou Sócrates a determinado momento. E, no dia seguinte, o Diário de Notícias escrevia “Rodrigues dos Santos irrita Sócrates”. Não me pareceu que fosse tanto assim, o verbo não me parece correcto.
A VERDADE, no entanto, é que aquele espaço – como de resto todos os outros que lhe são semelhantes, o de Marques Mendes, de Manuela Ferreira Leite e Morais Sarmento, embora uns mais do que outros – é uma espécie de banquinho no Hyde Park Corner onde toda a gente diz o que lhe passa pela cabeça e, à sua frente, muito pouca a gente a fazer o chamado (e desejado) contraditório. E foi isso que José Rodrigues dos Santos fez: Rodrigues dos Santos repetiu e tornou mais uma e outra vez a repetir a pergunta: há ou não há uma contradição entre as críticas feitas pelo José Sócrates de hoje à política de austeridade do Governo, com as declarações do José Sócrates primeiro-ministro em 2011 a defender a austeridade como “o único caminho” para o País?
QUE RESULTA daqui? Que ou Cristina Esteves – e os outros que ali estão frente a Marques Mendes, Ferreira Leite e Morais – fazem o que José Rodrigues dos Santos fez este domingo (questionar, pôr dúvidas, etc.), ou correm o risco de não passarem de figuras meramente decorativas. Ou, o que ainda acaba por ser pior, por passarem por coniventes e concordantes com as afirmações proferidas pelos comentadores sentados à sua frente. Agora, resta esperar 15 dias, data do próximo programa, e ver o que fará Sócrates. É que, tal como disse que “não estava à espera” daquilo, também disse que, da próxima, iria preparado. É esperar para ver.
TAL COMO me regalo, todos os domingos, com o “BBC Terra” (que ultimamente nos voltou a trazer David Attenborough, com a curiosidade de ele nos ter mostrado alguns dos seus primeiros filmes, em que estava substancialmente mais novo), também achei interessantíssima a rubrica “Perdidos e Achados” da SIC que nos levou ao Jardim Zoológico de Lisboa, um dos zoos do mundo com maior taxa de reprodução. Achei impressionante aquela subespécie de primatas que escorraça de casa o terceiro filho… E que, no entanto, melhor ou pior, lá consegue sobreviver, sabe-se lá com que ajudas e com que carinho de que mãe…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Há (infelizmente) uma dualidade de processos entre as duas estações: enquanto a TVI se bate há muito tempo pelo produto nacional – não interessa agora a sua qualidade – e o mantém nos horários para que o programou, única forma de fixar audiências, a SIC tem a política da barata tonta, mudando da tarde para a noite e vice-versa, sem parecer saber o que fazer ao produto que tem entre mãos. E até mesmo o seu último grande sucesso em matéria de produção nacional, “Fúria de Viver”, andou em bolandas na sua fase final.
E depois assistimos, no tal “Às 2 por 3” a esta coisa caricata que é os apresentadores Fernanda Freitas e José Figueiras, anunciarem um dia destes que, já a seguir, podíamos assistir a mais um episódio da série “Rex, o Cão Polícia” e chamando-lhe “o legítimo, o verdadeiro, o único cão polícia da televisão portuguesa”, numa clara alusão a “Max”, um outro pastor alemão que vive, não em Salzburgo, mas para os lados de Queluz e que tem uma aparição semanal na TVI aos domingos, um pouco ao contrário do que acontece com Rex, que já teve 500 donos e a cuja mudança de proprietário temos assistido profusa e repetidamente.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4020 de 28 de Março de 2014

