Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

JOSÉ MEDEIROS FERREIRA: PARTIU UM MESTRE DA CIDADANIA, DO PENSAMENTO E DA VIDA

José Jorge Letria

Pertenço à geração que se seguiu à de José Medeiros Ferreira nos combates académicos e políticos, no quadro de uma ampla frente de resistência à ditadura. Quando me envolvi nesses combates, suponho que o corajoso dirigente estudantil já se encontrava exilado em Genebra, onde se licenciou em História, onde continuou a lutar pelo derrube da ditadura e onde criou com outros intelectuais portugueses exilados a revista “Polémica”, que Mário Mesquita me deu a conhecer no princípio dos anos 70, na redacção do “República”.
Só conheci pessoalmente Medeiros Ferreira depois do 25 de Abril e acompanhei a sua intensa actividade política e depois académica, como figura muito prestigiada da Universidade em Portugal. Tive várias vezes vezes oportunidade de conversar com ele, inclusivé em aeroportos onde casualmente nos encontrávamos, pois, no exercício das funções que desempenhávamos, éramos forçados a viajar bastante. A última vez que nos encontrámos foi no Centro de Estudos Judiciários, no intervalo de uma reunião dos júris que integrávamos.Os sinais da doença tinham começado a ser visíveis.
Recordei sempre, e nunca deixei de lho dizer, a atenção que prestei à leitura da tese que enviou do exílio em Genebra para o Congresso da Oposição Democrática em Aveiro, em Abril de 1973. Lida por sua mulher, essa tese defendia um ponto de vista corajoso que se antecipou à própria realidade histórica. Nela José Medeiros Ferreira preconizava o derrube da ditadura de décadas através de um levantamento militar, posição que contrastava, por exemplo, com a do PCP, que continuava a defender nos seus documentos o carácter determinante do levantamento de massas, Talvez por isso, a tese de Medeiros Ferreira passou quase despercebida, injustamente, diga-se.
No parlamento, desde a Constituinte, primeiro como militante do PS e depois do PRD e de novo como eleito pelo PS, José de Medeiros Ferreira, que entretanto foi ministro dos Negócios Estrangeiros num Governo Constitucional presidido por Mário e propôs a adesão de Portugal à CEE, foi sempre um intelectual livre e interventivo, um grande orador e estratega, um homem de enorme cultura, de contagiante alegria de viver, com um sorriso e um agudo sentido crítico que não deixava ninguém indiferente e mobilizava muitas energias à sua volta.
A notícia da sua morte não me surpreendeu, pois sabia até que ponto era grave e irreversível a doença que acabou por vitimá-lo. Mesmo enfraquecido por essa enfermidade, não deixou de escrever, de intervir e de lutar, também contra o mal que o minava e debilitava de dia para dia.
Alguns amigos comuns iam-me falando da terrível batalha que travava, sem deixar que a compaixão entrasse no discurso de quem queria manifestar-lhe solidariedade.
A sua morte deixa em todos nós, e sobretudo no Portugal democrático de que foi um dos protagonistas e construtores, um vazio irreparável. Recordaremos sempre a sua grande inteligência e coragem cívica e o seu amor à vida. Pessoalmente, nunca esquecerei a sua paixão pelo Benfica, que também nos aproximava, tal como uma visão crítica e nunca subserviente da política e dos seus dirigentes. Aliás, a política não o tratou bem, designadamente o seu partido, o PS, que o afastou, há anos, das listas para a Assembleia da República quando tanto tinha ainda para dar a Portugal. Foi pena terem-no deixado partir com essa mágoa.
Agora há que recordá-lo pela grandeza do que fez e foi e ler ou reler os seus brilhantes ensaios de História política e institucional e também sobre as Relações Internacionais e sobre o lugar de Portugal no contexto europeu e mundial. Assim sentiremos ainda mais o vazio, mas prestamos-lhes, lendo-o, a merecida homenagem.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4020 de 28 de Março de 2014

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