O Castelo do Amor
Rodrigo Sobral Cunha*
Hoje trazemos à apreciação do leitor uma ilustração de Raul Lino, desenho aguarelado e avivado a oiro, com a designação «A rosácea das Princesas», feita para o conto de romance Castelo do Amor (1909) do esquecido Manoel de Sousa Pinto (1880-1934), grande amigo do arquitecto e que foi quem lhe pediu que escrevesse o seu primeiro livro, A Nossa Casa (1918), vindo aliás a prefaciálo mais de uma vez.Em Castelo do Amor um pajem busca o Amor. A certa altura diz-lhe «uma gentil mulher de olhos verdes» chamada Esperança: «Encontrá-lo-ás além, no seu velho castelo, novo de cada dia.» Mais adiante na aventura, vencido o monstro da Desilusão, a irmã de Esperança, de nome Alegria, diz-lhe: «Passado o bosque dos loureiros, que são de vitória, encontrarás o laranjal, que é das donzelas. Colhe entre os louros um ramo, tece uma grinalda de laranjeira, e segue! Logo descobrirás a soleira de oiro do velho castelo novo em cada hora.» Se o leitor não reparou na expressão de Esperança – «velho castelo, novo de cada dia», está agora obrigado a fixar a linda expressão de Alegria acerca do Amor – que mora nesse «velho castelo novo em cada hora». Foi esse instante de êxtase de alegria que os olhos de menino de Raul Lino fixaram para sempre diante do Paço Real da Vila de Sintra, para ele «o palácio encantado e de conto de fadas» como sempre o descreveria. Deste ponto de vista, a ilustração «A rosácea das Princesas», feita para o Castelo do Amor fantasiado pelo poeta-arquitecto, trás à luz a flamejante visão criadora que um dia o deslumbrou para sempre.
Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra
Anuncia-se com gáudio o interesse que despertou nos portugueses de Norte a Sul do País a iniciativa em curso, que entretanto sobrelotou o Palácio de Seteais, predispondo a sua direcção na gentil pessoa de João Côrte-Real a esforços de imaginação prática para alargar as condições de acolhimento daqueles que vão chegando com entusiasmo pelo pensamento, pela arquitectura, a paisagem e a vida portuguesas, na memória viva de Raul Lino. A estes esforços juntam-se a Câmara Municipal de Sintra e o Jornal de Sintra, para dar acolhida a este significativo e futurante acontecimento cultural. Pois assim ensina a História que só sobrevivem os Povos que praticam o culto dos seus heróis, vivificando a sua memória e irrigando desse modo cada nação com a inteligência e os feitos dos seus maiores. É o que se deseja, pelo menos em parte, ao longo das quatro estações de 2014 – nos 40 anos do falecimento de Raul Lino e nos 100 anos da inauguração da Casa do Cipreste. Ao Ciclo de Conferências primaveril sucede o 2º Ciclo de Conferências, florescente a 25 e 26 de Junho na Casa dos Penedos, com o apoio de Discovery – Culture & Taste, pela cortesia de Miguel Poças. Na ocasião poderemos escutar a comunicação de Gonçalo Byrne «Raul Lino, na intimidade da paisagem» e uma dezena de oradores que falarão sobre a arte e o pensamento de Raul Lino, particularmente sobre a ideia de obra de arte total, bem como músicos que executarão peças favoritas do arquitecto-músico e se aventurarão a musicar a sua arquitectura. No Outono, a Câmara Municipal de Sintra apoiará a vinda do arquitecto Léon Krier, admirador da obra de Raul Lino, no 3º Ciclo de Conferências, enriquecido pela presença de filósofos e pintores, ocasião também do lançamento da reedição do livro de Raul Lino Quatro Palavras sobre os Paços Reais da Vila de Sintra pela Colares Editora, nas mãos de Maria Rolim Ramos. Culmina o 4º Ciclo de Conferências do Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra no dia 21 de Novembro, data de nascimento do arquitecto da Casa Portuguesa.
*Organizador do Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, Professor no IADE
Publicado no Jornal de Sitra, ed. 4020 de 28 de março de 2014


