Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

29 DE MARÇO DE 1974/ 28 DE MARÇO DE 2014: A MESMA ALEGRIA COMBATIVA, O MESMO DESEJO INADIÁVEL DE MUDANÇA

José Jorge Letria

Quatro décadas após o espectáculo de 29 de Março no Coliseu dos Recreios, que terminou com uma interpretação colectiva de “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, canção escolhida pelos oficiais do MFA para ser a segunda senha do 25 de Abril, a Associação José Afonso e a Casa da Imprensa, organizadora do memorável encontro de cantores de há 40 anos, decidiram comemorar a data e sublinhar o seu significado, mesmo a esta distância, por representar a celebração, por públicos de várias gerações, do melhor que associamos a Abril e ao muito que trouxe ao povo português, após quase cinco décadas de ditadura.
E não se enganaram na aposta. A sala ficou com a lotação totalmente esgotada dias antes e o ambiente que se viveu dentro e fora do Coliseu fez lembrar o que envolveu o célebre espectáculo de há 40 anos atrás. Um misto de alegria combativa, de expectativa e de desejo de mudança caracterizaram o que se sentiu agora, na noite de 28 de Março.
Cansado de um ciclo de governação que só tem trazido sacrifícios quase exclusivamente aos mais desfavorecidos, que praticamente destruiu a classe média e que empurrou para uma emigração forçada dezenas de milhares de quadros jovens com formação superior, o público que esgotou por completo a lotação do Coliseu aguardou desta vez, como em 1974, as palavras, as emoções, os refrões partilháveis e algumas palavras de ordem que o motivassem ainda mais para a defesa dos valores de Abril.
Hoje, como há 40 anos, este encontro de cantores, agora já sem ausências impostas pelo exílio e sem um forte aparelho repressivo nas ruas, foi a proclamação inequívoca de um forte desejo de mudança, da fidelidade aos valores estruturantes do 25 de Abril e da vontade de gente de várias gerações de combater civicamente por um Portugal soberano, solidário e com justiça social. Esse sentimento pairou no ar do primeiro ao derradeiro minuto e deixou muito claro para quem estava presente que, do mesmo modo que o 29 de Março de 1974 anunciou a queda do regime, o encontro de cantores e músicos de 28 de Março de 2014 prenunciou o fim de um ciclo político e, consequentemente a mudança, que traga de novo a esperança e a confiança aos Portugueses.
Como há 40 anos, muitas canções foram cantadas em coro, houve longas ovações e palavras de ordem, confirmando, uma vez mais, que a canção quando se politiza e intervém pode ser uma ferramenta poderosa para unir e mobilizar aqueles que consideram a mudança inadiável.
Coube-me a responsabilidade, agora sem viola na mão, de fazer, no início, a intervenção de fundo, contextualizando o que aconteceu há 40 anos e ligando o significado da efeméride aos combates políticos e sociais da actualidade, a menos de dois meses das eleições para o Parlamento Europeu. Há quatro décadas fui cantor-autor no palco e também elemento da organização pela Casa da Imprensa e, desta vez, fui um cidadão convidado e sempre atento e empenhado que tentou fazer a ponte entre o passado e o futuro. Creio que consegui fazer passar essa mensagem.
Esta noite de 28 de Março pode muito bem ficar gravada na História, apesar de serem diferentes as condições políticas, sobretudo se conseguirmos associar o acontecimento à mudança de ciclo que a maioria deseja e que é imperiosa para que, ao contrário do que anuncia a máquina propagandística do governo, o país não entre em colapso e não se afunde mais do que já o afundaram económica, financeira, social e politicamente.
Como me dizia um velho conhecido que encontrei à entrada do Coliseu há 40 anos e no passado dia 28 de Março, “cá estamos outra vez para o que for preciso”. E foi disso mesmo que se tratou, ou seja, da presença de um público mobilizado, combativo e civicamente amadurecido que dará o melhor de si para que Portugal não se renda e seja capaz de recuperar a dignidade e a estabilidade de que o têm vindo a privar. É o mínimo que Abril nos exige.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4022 de 11 de Abril de 2014

Leave a Reply