Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Junho 10th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Mendes, o verdadeiro artista

Bernardo de Brito e Cunha

LEMBRO-ME quando as séries não obedeciam à regra dos três ou seis meses de duração (ou, pelo menos, é essa a ideia que tenho) e duravam, duravam… Deviam ter intervalos entre as diversas temporadas, claro: mas chegavam à nossa RTP (outra vez a ideia que guardo) a um ritmo tão alucinante que parecia não ter intervalos. Lembro-me da que imagino ser a mais longa de todas, “Bonanza”, tão longa quanto mais de 450 (e muitos!) episódios, segundo dados que vim a ter mais tarde. Uma coisa semelhante acabaria por acontecer aqui em Portugal, não com uma série, mas com um género mais recente, a novela: nos primeiros anos deste século assistimos (quem assistiu, bem entendido) a “Anjo Selvagem”, uma estucha sem nome que se prolongou por mais de 360 episódios. Curiosamente e para que se veja como estas coisas funcionam estilo pastilha elástica, esta novela foi reposta na TVI Ficção, entre 24 de Outubro de 2012 e 4 de Junho de 2013, mas então já contava apenas (?) com 236 episódios…

ISTO VEM a propósito de um programa que vi no último sábado, por mero acaso, ao fugir dos programas “Camilo, o Presidente”, “Gosto Disto!” e “Os Vídeos Mais Loucos do Guinness World of Records” (este último com um tamanho de título que é de fugir) com que a SIC nos brindava, e do “MasterChef Portugal” da TVI, mais um concurso culinário para o qual já não tenho paciência e que nem sequer acho que seja programa para um sábado à noite. Mudei então para a RTP e deparo-me com uma coisa que não esperava, “O Preço Certo”. Mas esta edição era especial: comemorava 12 anos de existência e as 2500 emissões.

Não esqueçamos que a versão portuguesa deste concurso que se espalhou por todo o mundo teve inicialmente uma versão na década de 1990, com Carlos Cruz, passando mais tarde a apresentação para Nicolau Breyner. Em 2002 o programa regressou à RTP1 sob o nome “O Preço Certo em Euros” apresentado por Jorge Gabriel e com a voz-off de Miguel Vital, que se mantém até hoje. Um ano depois, em Setembro de 2003, o testemunho foi passado ao actor e humorista Fernando Mendes. No Outono de 2006, o programa voltou ao nome original passando a chamar-se “O Preço Certo”. Os cenários mais modernos foram baseados na versão britânica mantendo-se Fernando Mendes na apresentação.

E DE TODOS esses nomes que referi e que passaram pelo programa, cada um deles carismático e marcando o programa à sua maneira, nenhum deles se compara ao que Fernando Mendes fez pelo formato. Basta ver os números, de anos e de emissões, e ter visto apenas um programa para se perceber que Fernando Mendes é, como se costuma dizer em linguagem popular, “outra loiça”. A sua capacidade de improviso, presente em todas as emissões, é notável. A forma como arrasta o público e o faz estar permanentemente consigo é impressionante. E este programa, que já fez com que Pinto Balsemão se tenha, primeiro, insurgido contra ele por não o considerar serviço público e, depois, tenha vindo a cobiçar o formato para a sua própria estação, está obviamente nas mãos certas. E para perceber o que é um verdadeiro sucesso popular bastava ter visto o que Fernando Mendes fez durante quase duas horas e meia: arrastar até ao Pavilhão Multiusos de Fafe duas mil pessoas e fazer, ao vivo, um concurso que transformou num programa (também) musical. Esta longevidade é notável em televisão.

E A COISA anda acesa, entre José Rodrigues dos Santos e José Sócrates no seu espaço de domingo. Desta vez a coisa foi completamente cordata, com Rodrigues dos Santos a limitar-se a responder a Sócrates, depois de uma série de acusações deste, com um “Fica registado o seu insulto, a que naturalmente não vou responder”. A coisa promete. E não ponho de parte que se trate de estratégia para a RTP roubar audiências a Marcelo…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O grande problema de Max é que está demasiado dependente do treinador, treinadora, dono, dona – o que for. Os seus olhares para a esquerda e para a direita denunciam a presença desse elemento e vê-se que ele espera ordens: só depois ladra. E, a bem dizer, ladrar é praticamente a única coisa que Max faz, ao contrário de Rex, que andava por montes e vales, ruas e avenidas, terraços de edifício ou caves com o maior dos à-vontades. Este não: este anda de carro, ladra e, no episódio que vi, abocanha o braço do suspeito. O que achei estranho foi que esse suspeito, de braço abocanhado, não tivesse desatado aos gritos: caramba, sempre era um pastor alemão – e se ele se tem distraído?»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4022 de 11 de Abril de 2014

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