Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Os douradinhos dos Globos da SIC

Bernardo de Brito e Cunha

HÁ SEMANAS assim, em que uma ou outra estação de televisão parece apostada em fazer a papinha toda a este vosso criado. E aconteceu outra vez, no domingo, com os “Globos de Ouro” da SIC (nunca me canso de pôr o acrónimo à frente, para que não haja confusão com os prémios atribuídos anualmente pela imprensa estrangeira a trabalhar em Hollywood). Ao longo das 19 edições deste certame, a última das quais se realizou no passado domingo, sempre me devo ter referido a estes Globos e creio que nunca terá sido para dizer bem – mas para ter a certeza teria de ir aos arquivos e julgo que o programa não merece essa trabalheira. Mas cito-vos, mais ou menos de cor, alguns dos defeitos que lhe fui apontando ao longo dos anos. Começando por aquele que me parece o mais evidente, o de ser pouco mais do que uma feira de vaidades que, como todas as feiras de vaidades, de pouco nos serve – sobretudo em tempos de crise, ou mesmo de pós-crise como alguns nos querem fazer crer, que isto agora vai ser sempre a acelerar, a começar pelos cortes nos ordenados. Adiante.

MAS OS DEFEITOS não ficam por aqui. Eu entendo que o evento, que é organizado pela revista cor-de-rosa Caras, atribua alguns prémios específicos, como o são, por exemplo, os de Melhor Modelo Feminino ou Melhor Modelo Masculino, bem como o de Melhor Estilista. Entendo: é um pouco desse mundo da moda que a revista vive (embora não exclusivamente), portanto tudo bem. Mas a partir do momento em que a revista decide também atribuir prémios a áreas como a do Cinema, às suas actrizes e actores e ainda aos realizadores; ao Teatro, com mais actrizes, actores e melhor peça; ao Desporto, com todas as suas variantes, e também à Música, com melhor intérprete, melhor grupo e melhor música, eu não posso deixar de colocar uma pergunta – que surgirá no parágrafo seguinte. Mas antes uma linha para referir o Prémio de Mérito e Excelência, atribuído ao grupo Xutos & Pontapés: eu sei que eles têm o mérito e a excelência, mas será que a SIC não se terá baseado apenas na longevidade do grupo? É que este prémio tem sido entregue sempre a pessoas de idade: Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho, Manoel de Oliveira, assim como quem diz “Toma lá antes que seja tarde”.

POR QUE RAZÃO que se perceba não há-de haver ali um cantinho para uns prémios que consagrem algumas zonas da Televisão? Os actores, os programas de informação, os apresentadores? Não faço ideia. É certo que já houve um percalço que pode estar na base desta decisão: um ano (1997, se não estou em erro) aconteceu que os prémios de Televisão foram parar, quase todos, a uma estação concorrente, se não estou enganado à RTP… Mas isso é coisa que apenas tem a ver com uma questão de fair play e nada mais. Para mais, a revista Caras não pode esquecer que está incluída num império de comunicação de que faz parte, igualmente, uma estação de televisão com diversos tentáculos e canais: a SIC, que talvez por esse pequenino detalhe foi quem transmitiu o concorrido certame. E é isso que não entendo: se a coisa até é transmitida pela televisão, então por que razão que se perceba não há prémios para a Televisão?

LAMENTAVELMENTE, não terminou bem a festa da terceira taça do Benfica este ano. Ausência do Marquês por alegados motivos de segurança, a chegada ao Estádio da Luz com a camioneta a ser “engolida” por adeptos e sem poder avançar. E quando foram os próprios jogadores a ter de pedir aos adeptos que se afastassem, até Luisão disse: “Alguém falhou aqui e não foram os jogadores que ganharam três taças.” E nessa noite, no “Trio d’Ataque”, Jorge Gabriel pareceu-me estranhamente conflituoso. Não em relação às três taças, eventualmente, mas em relação à quarta, não conquistada – e que não o terá sido, disse Gabriel, por causa dos festejos do Marquês, 17 dias antes. Excessivos e cansativos aqueles festejos, disse Jorge. Não exageramos nem nada?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Pela primeira vez, o Festival da Eurovisão teve de ter uma pré-eliminatória, dado que este ano registou um surpreendente número de inscrições: nada mais, nada menos do que 36. E como certos só estavam os dez países melhor classificados na edição do ano passado e os quatro “grandes” da União Europeia de Radiodifusão – Alemanha, França, Espanha e Reino Unido – os restantes 22 tiveram de disputar os dez lugares que sobravam.
Foi o que aconteceu a Sofia Vitória, a grande vencedora da segunda edição da “Operação Triunfo” da RTP 1, mas aconteceu aquilo que seria de esperar: a canção que o público português escolheu entre as três possíveis, “Foi Magia”, não agradou ao júri. Compreensivelmente, diria, pois a canção era a pior das três que aqui foi posta à consideração do povo e, portanto, natural seria que também não agradasse à população de onde quer que fosse. Mas tudo isto (e toda esta aparente lógica) vai por água abaixo ao ouvir as outras canções: que, com honrosas excepções, eram tão “boas” ou piores do que a nossa.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4028 de 23 de Maio de 2014

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