Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

CHAPLIN HOJE E SEMPRE, A BEM DA HUMANIDADE

José Jorge Letria

Charlie Chaplin nasceu há 125 anos e estreou-se como realizador há um século, em Hollywood, revelando um talento ímpar que viria a fazer dele um dos génios do século XX, também com uma invulgar capacidade de defender os seus direitos autorais e a justa comercialização das suas obras.
Tudo o que possa ser dito a seu respeito acabará por ficar aquém do que ele merece que seja dito, pois, além de actor cómico, foi compositor, bailarino, escritor e tudo o mais que uma enorme imaginação lhe permitiu ser. Um jornal português decidiu em boa hora celebrar as duas datas concentrando em vários CD o essencial de uma obra mágica que nos fará rir até ao fim dos tempos, já que o verdadeiro humor não tem épocas nem depende de modas, ao contrário do que rege, na actualidade, alguns ciclos do humor televisivo e de palco. Chaplin era outra coisa e, por isso, é legítimo, quando dele se fala, que se fale de eternidade.
Filho de um casal ligado ao mundo do espectáculo, Charles Spencer Chaplin viveu uma infância de incerteza e privação, tendo escolhido o momento certo para emigrar para os Estados Unidos, cuja nacionalidade nunca lhe foi concedida e ele, por certo, também nunca quis, até porque foi vítima de incompreensões e perversidades de quem lhe invejava o talento suspeitando das suas simpatias políticas.
Aquele a quem chamamos e chamaremos “Charlot” teve a designação original de “The Tramp”(o vagabundo). Mas, seja qual for o nome que lhe queiramos dar, é sempre de génio que falamos quando falamos dele. W.C. Fields chegou a dizer que ele foi o melhor bailarino que alguma vez viu num estúdio de cinema. Mas foi muito mais do que isso como autor, produtor, intérprete e empresário, criador de músicas inesquecíveis, fundador da United Artists em 1919 e inimigo declarado de formas governação assentes no terror, como foi o caso do nazismo, na Alemanha, a partir de 1933.
Rever os seus filmes é reencontrar, na sua pureza máxima, uma forma de perpetuar o que o ser humano possui de mais profundo e sensível, bastando para isso revisitar “O Garoto de Charlot”, “A Quimera do Ouro” ou “Os Tempos Modernos”. Chaplin voltou já muito idoso aos Estados Unidos, deixando o sossego da sua residência na Suíça, para receber uma derradeira homenagem e foi comovente ver a emoção com que o público o aplaudiu como se lhe pedisse desculpa pelas horas difíceis que J.Edgar Hoover e o FBI o fizeram passar devido ao seu posicionamento ideológico e também a forma como a imprensa mais especulativa explorou os seus casos sentimentais até ele conhecer e se casar com Oona O’Neill, filha do grande dramaturgo Eugene O’Neill, um dos maiores criadores do teatro contemporâneo.
E não deixa de ser impressionante ver o modo como o público de hoje se identifica com Charlie Chaplin, 100 anos após a sua estreia, e sobretudo com o seu vagabundo sábio, manhoso, justiceiro, apaixonado e com um extraordinário tempo de representação. Como Shakespeare, Da Vinci ou Miguel Ângelo, Charlie Chaplin conseguiu ascender a um patamar de grandeza e universalidade que o colocou muito acima das coisas mesquinhas do nosso quotidiano. De cada vez que alguém chora ou ri, pode muito bem estar a reagir a um dos momentos mágicos que Chaplin eternizou com o seu génio de grande criador e artista.
Durante décadas, este inglês que nasceu pobre, filho de uma mãe emocionalmente muito instável, foi mestre e pioneiro, poeta das horas mágicas das nossas vidas atormentadas e tantas vezes aflitas e, por isso, nunca será esquecido, na paz como na guerra, no riso como nas lágrimas, pois conseguiu inscrever o desejo de eternidade no assombro de cada imagem posta em movimento. Que viva Chaplin, a bem da humanidade !

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4028 de 23 de Maio de 2014

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