Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira, 26 de Outubro de 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Mas a TVI não tem vergonha! Mesmo!

Bernardo de Brito e Cunha

NÃO BASTAVA o aqui descrito a semana passada e não é que hoje, terça-feira, na TVI, no programa da manhã, Manuel Luís Goucha volta a apresentar uma reportagem sobre pais que fazem o luto de filhos que morreram. Não era a mesma do “Jornal das 8”, eram outros casos, outros pais. E este martelar parece-me repugnante. Não se sabe, naturalmente, o que terá dito Manuel Luís Goucha, homem de bom gosto, a esta decisão que não creio ter sido sua: mas provavelmente não terá tido muita escolha. Ainda se lá estivesse Cristina Ferreira, eu acreditaria que tudo seria possível, até a escolha decisiva: mas não, deve estar de férias. A partir do momento em que o “Você na TV” se assumiu descaradamente como uma versão televisiva do “Correio da Manhã” (basta acompanhar os chamados “Casos de Polícia” para se perceber que assim é) tudo é possível. Como se o “Correio da Manhã” não tivesse um canal de televisão próprio para toda a casta de desgraças e furtos e estupros e violação de menores… Isto é uma confirmação de que as audiências do CMTV não são aquilo que se esperava?

O CANAL RESIDUAL em que se transformou a RTP 2 é, obviamente, um convite a que se acabe com ele. Tudo aquilo que pode ser “melhorzinho” é transferido para lá, tudo aquilo que pode parecer mais enfadonho, idem e até as tentativas de romper com o estabelecido, os gozos ao que se faz nos outros canais desagua na 2. Bastava ter visto a reposição de “O Último a Sair”, a charge da RTP aos reality shows, no segundo canal para ter percebido que ali é o sítio onde se despeja tudo aquilo que as anteriores direcções de programas acharam por bem pôr no ar e que as novas acham, como direi?, inconveniente. A sátira de Bruno Nogueira e companhia merecia ser exibida e reexibida todos os anos no canal um e em horário nobre, porque é um exercício notável em torno do humor e da realidade televisiva. Em vez disso… canal 2 com ele!

TEM SIDO o assunto da última ou das duas últimas semanas, o afundamento do BES. E eu, que como Jesus Cristo (no dizer de Fernando Pessoa) não percebo nada de finanças, percebo – por baixo – o que se passa. O que não entendo, no meio de tanta notícia da famiglia, perdão, da família Espírito Santo, é que não tenha surgido nenhuma notícia de um anónimo (ou de dez, ou de cem, ou até milhares) que quiseram levantar as suas poupanças do banco. Ninguém o fez? Toda a gente confiou na palavra do Governo, que disse não haver motivos para preocupações e que todos os depósitos estavam garantidos? Desculpem, expliquem lá melhor: todos os depositantes acreditaram na palavra de um Governo que, no período pré eleitoral disse não ir aumentar impostos, e que depois fez exactamente o contrário? Ninguém, repito, ninguém foi levantar os seus magros euros ao Banco Espírito Santo? E Cristiano Ronaldo tinha lá conta? E levantou, também ele, os seus “magros” euros? Caramba, se calhar foi isso que deitou tudo aquilo abaixo! Coisa estranha, estranhíssima… Ou então é a D. Inércia em acção.

PARECE que há mais um guarda condenado por ter disparado sobre um homem em fuga. Neste último caso, julgo que o meliante (sem ofensa: até é o nome por que designo o meu filho…) fugia por não ter carta, o guarda disparou e o fugitivo ficou paraplégico. A coisa começa a tornar-se demasiado corriqueira: não será melhor tirar as armas aos agentes? Ou então corre-se o risco de que estes voltem o olhar para o outro lado, por mais grave que seja aquilo a que estão a assistir. Porque, se eu for guarda e disparar (e tiver o azar de ter a pontaria afinada) sobre um meliante, seja ele de que natureza for, onde é que vou buscar 80 e tal mil euros para indemnizar a vítima que – milagre dos milagres – entretanto e apesar de paraplégico, já cometeu outros crimes?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Há pouco mais a dizer. Não fomos bastante fortes para resolver o problema da defesa grega, mas restam algumas consolações. Em primeiro lugar, o de sermos vice-campeões europeus (embora para muitos a segunda posição seja rigorosamente a mesma coisa que a última); para além disso resta-nos uma organização que, aparentemente, não falhou (mas temos de lembrar aquele deslize da segurança no jogo da final, com a entrada em campo de um intruso); e um entusiasmo como aquele, em torno da selecção de todos nós, com bandeiras, cachecóis e sei lá mais quê, foi coisa nunca vista. A festa nas ruas, a sempre comovente viagem do autocarro da selecção desde Alcochete até ao estádio, o entoar do Hino Nacional como se se tratasse de uma mera canção de claque – e não era? – são imagens que ainda hoje me arrepiam e deixam de olhos húmidos. Quem sabe se tudo teria sido diferente se nos tivéssemos unido à selecção desde que começou a trabalhar? Guardemos a lição para o Mundial.

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4036 de 18 de Julho de 2014.

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