José Jorge Letria
Foi num dia 27 de junho, há oito séculos, que a elaboração do testamento de D. Afonso II em português abriu as portas para a afirmação e expansão de uma língua que dava ainda os seus passos iniciais. Numa época em que a língua de comunicação escrita era essencialmente o latim, o recurso à jovem língua portuguesa constituiu um sinal de esperança e de confiança no futuro que nunca mais deixou de dar frutos.
Muitos outros se seguiram. O mais importante, na primeira dinastia, foi a decisão de D. Dinis, rei-poeta e grande investidor num projecto de crescimento que já incluía a expansão marítima, de ordenar que todos os documentos oficiais do reino passassem a ser redigidos em português, acto que deu asas a essa jovem língua para chegar mais longe do que muitos foram capazes de admitir ou de imaginar. Por isso, foi também decisiva a criação dos Estudos Gerais, o núcleo fundador de uma universidade de que Portugal necessitava para que a sua elite não vivesse em conventos e sacristias, debatendo somente questões teológicas.
Portugal cresceu com a língua e deu a essa língua mais mapa, mais horizonte, mas certeza de futuro. E é justamente esse aniversário que hoje se comemora, numa época em que os dinheiros do Estado para a Cultura nunca foram tão minguados e sofridos e em que a própria capacidade de investimento no crescimento criativo e artístico nunca esteve tão em causa, apesar dos estudos de encomenda oficial que pretendem demonstrar o contrário.
A verdade é que escrevemos e falamos uma das línguas mais usadas no mundo, com mais de 250 milhões de falantes e com um potencial de crescimento que lhe dilata horizontes de crescimento muito promissores. A comemoração destes oito séculos da língua portuguesa deve ser, sem preconceitos nem complexos, um factor de reforço do diálogo e da cooperação entre os vários povos e pátrias que usam esta língua comum, de Lisboa a Díli, de Luanda à Cidade da Praia, de Bissau a Maupto, já que a nossa fala comum constitui um poderoso cimento de unidade e de compreensão que nos tornará tanto mais fortes quanto mais longe chegar o rumor comunicante desta língua com tanta história, tanta memória e tanta promessa de cooperação e de futuro.
Por outro lado, é também tempo de impor como imperativo cultural e moral o bom uso desta língua aberta e dinâmica, para que a comunicação social e outros espaços comunicacionais não apareçam infestados de pessoas que têm bons contactos na política e no resto mas que casam mal o sujeito com o predicado. Quem usa mal, sem rigor nem virtude, essa nossa língua comum não deve ter o direito de a usar como mero elemento instrumental, menorizado e subalterno.
Embora vivamos numa época em que a imagem é cada vez mais forte nos processos de comunicação, nunca acreditei que uma imagem tenha mais força que mil palavras. As ordens, os conselhos, a ternura e o amor é sob a forma de palavras que se materializam e não através de imagens, por mais engenhosas e belas que elas consigam ser.
Por tudo isto, comemorar estes oito séculos de vida de uma língua livre e soberana que, por sinal, até se afirmou com a forma de um testamento real deve conter um verdadeiro apelo ético ao rigor, à seriedade e a uma dinâmica e sempre estimulante abertura ao mundo. Em português somos mais livres, aprendemos mais e emprestamos ao mundo a nossa visão universalista e solidária.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4036 de 18 de Julho de 2014.

