Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Junho 10th 2026

ABANDONO DE ANIMAIS TAMBÉM RETRATA ESTE PAÍS

José Jorge Letria

Há quem continue a pensar que o facto de, num país em crise profunda, haver tanta gente desempregada, empurrada para as novas rotas da emigração e descrente da política e dos políticos torna ilegítima a preocupação com os animais abandonados, sempre em número crescente, e com a incapacidade que as estruturas autárquicas e outras têm de encontrar soluções que permitam atenuar o efeito desta dramática situação. É um erro pensar desse modo, já que os animais de companhia são, na maior parte dos casos, os únicos seres que povoam as várias formas de solidão urbana. Há milhares de idosos e de crianças, entre outros, para quem um cão ou um gato são a única luz de esperança no meio de quotidianos martirizados pela falta de quase tudo.
Esta não é uma perspectiva nova. Há muito que se sabe, com apoio estatístico, que nas sociedades contemporâneas, espaços tensos e confusos onde se misturam interesses e conflitos, os animais de companhia, com os cães à cabeça, são um amparo afectivo que as pessoas que contam com ele não podem dispensar.
Finalmente avançou-se em Portugal para a criminalização dos mais tratos e do abandono de animais. O diploma já foi promulgado pelo Presidente da República, mas é sabido que as novas formas de penalização são ainda demasiado brandas para quem castiga os animais por aquilo de que serão sempre inocentes.
Há muito que as pessoas adquirem animais sob o impulso da moda ou da leviandade aquisitiva sem pensarem no esforço que a manutenção doméstica de um animal implica, desde a vacinação, à alimentação adequada, passando pelas idas à rua e pela integração dos animais no quotidiano das casas. Muitas pessoas confrontadas com este grau de exigência optaram pelo abandono puro e simples. Uns quilómetros percorridos, uma porta de carro aberta e depois uma rápida fuga para não se deixarem apanhar pelo animal desnorteado e triste. Países como a Itália ou a França fizeram acertadas campanhas para combater este flagelo e também para evitar que cães de grande porte passem anos enclausurados numa varanda exígua ou fechados num pequeno quarto com muito rápidas idas à rua. Alguns dos filmes dessas campanhas são peças exemplares de pedagogia e sensibilização. Por cá pouco ou nada se fez nesse domínio.
Informações recentes demonstram que em 2013 foram abandonados mais de 30 mil animais e que o número de abandonos confirmados duplicou desde 2008. Imagina-se o drama que estes números representam para os canis e gatis existentes e também para as autarquias onde existem pessoas com sensibilidade bastante para não atirarem este problema para debaixo da carpete. Por outro lado, é cada vez maior o número de responsáveis por aquelas estruturas de acolhimento que afirmam não ter espaço nem recursos para proteger e salvar os animais abandonados. Muitos deles, privados de quase tudo, praticamente renunciam à vida, arrastando-se entre grades à espera que o dono reapareça ou que alguém ponha fim a uma tão imensa espera.
Nos canis/ gatis escasseiam os medicamentos e por vezes também os alimentos. As pessoas responsáveis estão cansadas e angustiadas, também por terem a consciência de que este tempo é adverso a este tipo de debate e à resolução deste tipo de problemas sociais.
Entretanto, há cada vez mais animais abandonados e atropelados nas estradas e auto-estradas, o que constitui uma séria ameaça para a saúde pública. Uma sociedade que trata mal os seus animais, mesmo com leis que mostram a preocupação do legislador com este flagelo, não pode reivindicar um estatuto de maturidade com tamanha falta de cidadania. Tratar mal, abandonar e explorar os animais dá sinal de um vazio de civilidade que só obscurece a nossa vida em sociedade.
Numa sociedade egoísta e fanatizada pela cobertura mediática que só se mobiliza à força de banhos gelados ainda há muito para aprender sobre este problema estrutural que não consente indiferença ou arrogância. Quem não honra os seus deveres neste domínio tem um longo caminho a percorrer até que a sua voz mereça ser ouvida. E convém ter presente que os cães, gatos e outros animais abandonados, importantes nas nossas vidas, não têm acesso ao “facebook” nem levam bancos à falência, mas estão vivos mesmo ao nosso lado.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4040/41 de 19 de Setembro de 2014

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