Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Junho 10th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

O Armando, o Manuel e os Antónios

Bernardo de Brito e Cunha

SE BEM se lembram, terminei a última crónica a falar da campanha “Desmascarar os Corruptos”, uma iniciativa da Organização Transparência Internacional. Parecia de propósito: o acórdão do caso “Face Oculta” foi lido no dia 5 deste mês. E, de repente, como se o colectivo de juízes do Tribunal de Aveiro tivesse tomado conhecimento daquela campanha, o resultado foi, como soe dizer-se, de escacha-pessegueiro: o antigo ministro e ex-vice-presidente do BCP, Armando Vara, foi condenado a cinco anos de cadeia por três crimes de tráfico de influência sobre Manuel Godinho. Nenhum dos 36 arguidos, entre eles duas empresas, foi absolvido. A procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, justificou as condenações com “uma boa investigação”. O colectivo de juízes presidido por Raul Cordeiro deu ainda como provada a associação criminosa da “rede tentacular” do sucateiro Manuel Godinho, condenado à pena mais pesada no processo (17 anos e meio). A rede tinha como objectivo conseguir favorecimentos em concursos para levantamentos de resíduos a troco de contrapartidas.

É CERTO que todos os arguidos vão recorrer da decisão, pelo que a história não termina aqui. E como todos sabemos que isto de recorrer de uma decisão dos tribunais se arrasta por anos e anos, haverá mesmo a possibilidade que todos os condenados acabem por morrer de morte natural entre um recurso e outro… Note-se, de resto, que Armando Vara foi condenado por “três crimes de tráfico de influência sobre Manuel Godinho”, mas foi este quem levou a pena mais pesada: parece que, apesar de se ter feito justiça, há uma diferença entre um ex-ministro e um sucateiro…

TENHO PARA MIM que esta coisa de partidos políticos é um pouco como o casamento: nos dois casos haverá diferenças de opinião, de perspectiva, de qual o melhor caminho a tomar, mas não é prática corrente, num casamento, levar essas questões para lá das portas de casa. Pedir opinião a um familiar próximo e com mais experiência? É um caminho. Ir para a televisão, ou pôr a correr uma espécie de votação o mais aberta possível a todos é que já me parece exagerado. Não só exagerado como descabido. Parece que o Partido Socialista não é da minha opinião. Então aquele diferendo não podia ser resolvido dentro de portas? Acho que não só podia como deveria. Mais a mais, o PS tem umas instalações que, vistas de fora, me parecem adequadíssimas para resolver questões de toda a natureza e feitio.

JULGO QUE a questão se levantou depois das eleições europeias (essas, as que levaram até Estrasburgo e Bruxelas Marinho e Pinto, mas de onde ele já voltou, dizendo cobras e lagartos do cargo a que se candidatou…) e pela diferença de visão de muitos nomes do partido face aos resultados dessas eleições. António José Seguro achou que aqueles 3,5 porcento de diferença representavam uma vitória histórica sobre a direita que nos governa, ao passo que António Costa, entre muitas outras vozes, achou que aquilo era uma vitória menor e miserável. Aí, estou com ele. E escrevi-o na altura.

Decidiram então os dois – um pouco a contragosto de António Costa, creio – que a coisa não poderia continuar assim. E Seguro, que acha que o cargo de secretário-geral é seu por direito, “condescendeu” em pôr a votação não o seu cargo, mas um futuro e hipotético cargo de primeiro-ministro. Imaginemos que Costa ganha estas primárias e o PS as eleições: como vai ele governar, com Seguro como secretário-geral e sentado na Assembleia? E vão os dois (já foram por duas vezes e irão uma terceira, à RTP, daqui por quatro dias) para as televisões esgrimir argumentos, ofensas e ataques pessoais? Espectáculo degradante que não deixará de ter influência nos resultados daquilo que verdadeiramente importa, as legislativas. E lamento que Seguro não tenha sido capaz de olhar para esta legislatura que ainda não terminou, constatar que não teve a firmeza que se esperava de um secretário-geral do PS e, com alguma grandeza, resolver a questão no Largo do Rato. Esse teria sido o seu maior gesto desde que Passos Coelho subiu ao poder. Mas não: e sairá, penso eu, pela porta pequena.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«“A Senhora do Destino” parece-me um caso bastante sério. E digo isso porque me parece uma novela sobre o brasileiro trabalhador. Eventualmente, será também uma novela para o brasileiro (e, por arrasto, o português) trabalhador. Uma história sobre pessoas que vencem na vida através do próprio esforço. Uma trama que traz como tema central Maria do Carmo, mãe de cinco filhos, que venceu na vida através de muita luta, mas que terá como grande batalha a reconquista de sua filha, sequestrada ainda recém-nascida. Os dois primeiros episódios pareceram-me exemplares: a circunstância de o autor Aguinaldo Silva ter situado a primeira parte da acção em 1968, permitiu que o realizador Wolf Maya pudesse fazer um trabalho excelente de reconstituição da tomada do poder pelos militares. Muitas são as figuras (reais) que vemos, em imagens da época, rumarem ao exílio: é o caso de Caetano Veloso, Chico Buarque e do actual ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4040/1 de 19 de Setembro de 2014.

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