José Jorge Letria
Mário Soares completou 90 anos de vida e teve muitos amigos e admiradores a felicitarem-no pela passagem do aniversário num restaurante de Lisboa. Como sempre acontece na vida de um político, sobretudo de um grande político, o acto teve uma clara dimensão política, pois todos quiseram sublinhar com a sua presença a importância da vida e da combatividade deste homem que continua a marcar a história da democracia portuguesa.
Político por vocação e paixão, Mário Soares foi um dos fundadores da democracia portuguesa e talvez a pessoa que hoje, com os visíveis sinais da idade vivida e combatida, continuam a defendê-la, com palavras que, mesmo parecendo excessivas, ajudam a despertar consciências e a apurar a resistência dos que não aceitam desistir perante a pequenez moral e ideológica de quem tudo faz para destruir o melhor do património político, social, cultural e económico construído a partir do 25 de Abril.
A diferença que Mário Soares marca está na sua estatura invulgar enquanto estadista, que contrasta com a dimensão da maior parte dos responsáveis políticos actuais, em geral muito longe do que ele representa, em coragem e firmeza. Depois há outro aspecto central no seu comportamento que é a percepção clara que tem do que considera ser inadiável e estratégico para o nosso futuro colectivo. A sua vida sempre foi marcada, e continua a ser, por essa percepção, que tantas vezes aproxima os grandes políticos dos grandes artistas, porque percebem qual é o momento que o destino traçou para as coisas acontecerem, porque o destino, ou alguém por ele, traçou esse calendário inalterável.
Mesmo quando estava em minoria, Mário Soares nunca desistiu ou renunciou, como aconteceu na sua primeira candidatura vitoriosa à Presidência da República. E quem assistiu de perto, nessa altura, aos acontecimentos da Marinha Grande percebeu de que modo há factos que mudam o desfecho de um processo político, porque quem os protagoniza sabe que o rumo só pode ser um e que é irrevogável, sem que este adjectivo seja aqui conspurcado por declarações conhecidas de um governante no activo.
Para além disso, Mário Soares, mesmo nos mais árduos combates políticos, nunca deixa de ser um homem de cultura, orgulhoso das suas amizades artísticas e culturais, da sua fantástica biblioteca e da ligação que teve, durante décadas, com algumas das maiores figuras da vida cultural portuguesa, que sempre o viram como um símbolo da liberdade e da firmeza moral perante a adversidade e a tendência perigosamente generalizada para o agachamento perante o poder excessivo de potências que dificilmente respeitam as regras da paridade democrática, num mundo que não percebe a perigosa complexidade do que está a viver, desde o Médio Oriente até à Ucrânia.
Houve anos, no pós-25 de Abril, em que, por motivos ideológicos, não estive com Mário Soares, mas faço parte daqueles que nunca deixaram de perceber o seu decisivo contributo para a defesa e engrandecimento da nossa vida democrática e que percebem que, sem ele, a nossa história teria sido forçosamente outra, sem este brilho, esta coragem e esta combatividade. Desde a sua primeira candidatura presidencial que conta com o meu voto e a minha admiração, e a História encarregou-se de me mostrar até que ponto a dimensão do estadista esteve muito acima das querelas que frequentemente conspurcam a nossa vida política, fruto de interesses fugazes e da luta pela satisfação de ambições pessoais.
Para além disso, há nesta obstinação de Mário Soares em continuar a lutar uma paixão pela vida que não admite retiradas tácticas ou silêncios calculados. Hoje Soares não tem de fazer contas políticas e de pensar duas ou três vezes antes de tomar posição, porque não é candidato a nada a não ser ao seu merecido lugar na História. E mesmo que fosse candidato, estou certo que o seu discurso teria o mesmo timbre a a mesma firmeza mobilizadora que tanto nos fascina e motiva.
Acabei de ler mais uma biografia de Nelson Mandela, escrita por uma professora universitária sul-africana, e percebi, mais uma vez, o que fez e faz da sua figura uma referência absoluta da sua vida como político e estadista. Um dos aspectos centrais dessa superioridade é resultado das circunstâncias históricas, mas também e sobretudo da sua visão estratégica, da sua coragem e da sua serenidade. É essa dimensão de estadista que Mário Soares transporta consigo, muito antes dos títulos políticos e académicos e a par da sua empenhada e combativa paixão pela liberdade, num momento em que Portugal se vê privado de quase tudo o que lhe deu grandeza, soberania e autoridade no contexto das nações.
Pode e deve Mário Soares continuar a lutar por aquilo em que acredita, para que os mais novos não entreguem as armas cívicas da esperança e da alegria e não se convertam em figuras tristes e distantes das grandes decisões que podem e de devem fazer mudar a nossa vida. Soares é um velho guerreiro que recusa os apelos ao repouso e à retirada. Lutará até ao fim para assombro e motivação de todos quantos vêem nele a chama intensa do amor à democracia e à liberdade.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4053 de 12 de Dezembro de 2014

