José Jorge Letria
António Guterres, alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, deu a Teresa de Sousa, no “Público”, uma das mais interessantes e estimulantes entrevistas que lemos nos últimos tempos. E digo interessante e estimulante porque fazendo o balanço político, económico, social e humanitário ao ano de 2014, mostrou, uma vez mais, a sua dimensão como estadista que leva muitos cidadãos portugueses a pensarem que é ele a pessoa certa para assumir a Presidência da República, após a saída de Cavaco Silva, deixando de lado outras hipóteses que não têm a mesma consistência e viabilidade. Há quem garanta que Guterres tem ambições que passam pelo futuro da ONU, em Nova Iorque, mas há um Portugal que se debate com múltiplas incertezas e angústias e que se veria muito bem representado pela sua capacidade política, diplomática e forte sentido de Estado.
Neste momento, tudo depende do próprio Guterres e da sua vontade política, embora esta entrevista dada ao “Público” possa fazer parte de uma inteligente movimentação de quem vai consolidando o caminho até anunciar a opção final, com Belém no horizonte.
Uma das afirmações fundamentais deste homem que tem percorrido o mundo a procurar soluções para milhões de pessoas exiladas, banidas, perseguidas e esquecidas pelos Estados e por outras instituições está relacionada com a forma como hoje podemos ver as guerras e os seus resultados. Disse Guterres que, nos seus anos de liceu, costumava haver nas guerras vencedores e vencidos. Mas hoje, em situação de guerra, todos saem a perder, todos acumulam muito mais perdas que ganhos, o que faz com que o mundo se torne cada vez mais difícil de gerir, de governar e de equilibrar naquilo que é verdadeiramente essencial para as comunidades humanas.
Depois, o ex-primeiro-ministro de Portugal menciona o acentuado processo de declínio da Europa, hoje já sem líderes de visão abrangente e humanista como Olof Palme ou Willy Brandt, que, sem força militar e a braços com profundas divisões políticas internas, procura saídas e respostas que deixam sempre o essencial no domínio táctico e não no estratégico.
Para além de ter caracterizado a forma insuficiente como os países encaram, em regra, o problema do asilo e do tratamento condigno dos que ficam privados de tudo, Guterres destaca o aumento alarmante de refugiados e também o drama de jovens de outras etnias e culturas que a conflitualidade social vai empurrando para formas extremas de radicalismo religioso ou outro e que se tornam verdadeiros problemas sociais e políticos em democracias desenvolvidas.
Deixando claro que continua “a preferir ser europeu e a viver na Europa”, António Guterres caracteriza a progressiva perda de influência da Europa, que acaba por perder, gradual e irreversivelmente, a força do seu legado civilizacional e do património de culturas que representamos no mundo ao longo de milénios.
Considera por outro lado Guterres que não foram dados os passos necessários em relação à Turquia e às chamadas “primaveras árabes”, criando-se um espaço de indefinição que pode tornar ainda mais frágil e vulnerável o que antes já o era. Diz ainda Guterres, que nunca deixou de assumir a sua condição de católico, que o Papa Francisco tem sido uma lufada de ar fresco na vida da igreja e nas relações internacionais. Reconhece ainda que hoje a capacidade norte-americana de influenciar é muito menor do que era, embora o seu enorme poder militar e económico torne esta potência incontornável, embora já não se mostre em condições de resolver os problemas sozinha.
Dito isto, ficamos na presença de uma clara, serena e profunda visão do mundo de um homem que ainda tem muito a dar ao seu país e ao seu tempo, assim seja essa a sua vontade e a sua disponibilidade. E uma coisa é certa: o momento de tensão e de pré-viragem em que Portugal se encontra faz com que essa visão deva ser entendida como um passo para ficarmos melhor do que hoje estamos, com mais equilíbrio interno, com uma democracia mais forte e com uma liderança mais inequívoca e mobilizadora.
Crónica publicada na Informação Digital do Jornal de Sintra de 30 de Janeiro de 2015.

