Semanário Regionalista Independente
Sábado Maio 28th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

A voz e a vez

Bernardo de Brito e Cunha

CLARO que segui os resultados das eleições de domingo passado na Grécia. O que estava em causa era mais do que a escolha de um novo governo: era a mudança entre os velhos políticos e a possibilidade de serem os mais novos a tentarem dar a volta ao problema grego. E, claro, esperava que o Syriza ganhasse, porque era altura de tudo aquilo levar uma grande volta. E, por outro lado, também queria assistir aos ataques de apoplexia dos dirigentes da Europa, de uma forma geral. A palavra apoplexia, de resto, vem do grego e significa “golpe violento”: e foi a isso que se assistiu, generalizadamente, pela Europa, nomeadamente os germânicos, que se apressaram a repetir – já o tinham dito antes – que não haveria (mais) perdões para ninguém, nem extensões de prazos, nada.

OS ALEMÃES, claro, foram os que ficaram mais preocupados: porque tinham entrado com uma fatia para ajudar a Grécia, essas coisas… Ou, melhor dizendo, inversamente preocupados à quantia que não pagaram por reparações da II Guerra Mundial e tudo por causa do empréstimo que obrigaram (literalmente) a Grécia a fazer ao III Reich. Isto já para não falar nos 150 mil mortos que provocaram no país. O mais preocupado, logo a seguir, foi Pedro Passos Coelho, que foi o único dirigente europeu que levou a crise e o país mais além do que a troika pedia. E, embora o empréstimo de cerca de mil milhões que Portugal fez à Grécia não lhe tenha saído do bolso nem tenha sido de sua autoria, já fez saber que não perdoava essa dívida – uma gota de água daquilo que a Grécia deve aos credores…

NUMA entrevista ao Channel 4, mesmo antes de saber se o Syriza ganharia as eleições e que ele seria ministro das finanças, Yanis Varoufakis explicou as três prioridades do governo grego:
•“Em primeiro, temos de lidar com a crise humanitária. É inconcebível que no ano de 2015 tenhamos pessoas que tinham empregos e casas e pequenos negócios e agora estejam a ir para a cama com fome à noite. É inaceitável que crianças estejam a fazer os trabalhos de casa à luz das velas, porque o fornecimento de electricidade foi cortado porque o Estado, na sua sabedoria infinita, decidiu lançar um imposto sobre a riqueza cobrado através da factura de electricidade. Estas coisas custam muito pouco dinheiro e têm um efeito simbólico e moral muito importante”.
•“A segunda coisa que precisamos de fazer neste país é reformá-lo. Reformá-lo profundamente. Reformá-lo de uma forma que ataque aquilo que chamo o «pecado triangular» que existe na Grécia. O pecado triangular na Grécia inclui as empresas fornecedoras de serviços que procuram alimentar-se de rendas estatais, os banqueiros e as empresas de media (comunicação social)”, controladas pela “oligarquia grega”. “Vamos destruir as bases sob a qual assenta a oligarquia que, década após década sugou a energia deste país“, prometeu Varoufakis.
•“Em terceiro, renegociar com os parceiros europeus este contrato de empréstimo que tem sido prejudicial para toda a zona euro”. Varoufakis diz que, “assim que alguém do Syriza tiver o primeiro contacto com Bruxelas [calhou-lhe a ele próprio...] o que deverá fazer é falar a verdade sobre a insustentabilidade da dívida pública, sobre a enorme negação que marcou a forma como a Europa lidou com uma bancarrota no seu seio e com um problema relacionado com a arquitectura da zona euro”. E quais são as probabilidades de uma saída da Grécia da zona euro?. “Zero“, respondeu Yanis Varoufakis, ao jornalista do Channel 4.

É UM conhecedor da situação portuguesa. Foi um dos primeiros subscritores internacionais do manifesto pela reestruturação da dívida portuguesa, e um dos que mais assinaturas de colegas recolheram… É também membro da “rede Ulisses”, criada por Rui Tavares, que procura relançar a economia europeia através de investimentos no Sul. No passado domingo, aliás, Rui Tavares felicitou-o pela vitória do Syriza, no Twitter. Varoufakis respondeu logo: “Obrigado, Rui. Agora é a tua vez.” Será?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Mina Andala é uma das actrizes da série de 13 episódios “Os Jika da Lapa” que elogia não só o canal de Carnaxide, mas também Manuel Fonseca, director de programas da estação, pela coragem de homenagear os imigrantes angolanos e a apostar num elenco totalmente negro para protagonizar um programa. “A nossa TV já devia isso à comunidade dos PALOP radicados em Portugal, que nunca teve uma série que retratasse a sua vida e a sua cultura. O que as pessoas vão ver é que ali só muda a cor. De resto, é igual a todas as famílias”, disse Mina Andala a um jornal da capital, sublinhando que, na ficção, os negros surgem sempre ligados “à delinquência, a famílias disfuncionais, à escravidão…”»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada na Informação Digital do Jornal de Sintra de 30 de Janeiro de 2015.

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