Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Maio 29th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Trocas e baldrocas. E mentiras…

Bernardo de Brito e Cunha

HÁ UMAS semanas estalou o escândalo Swissleaks, aquela história em que um ex-funcionário descontente, na altura da rescisão do contrato, decidiu meter na caixa de cartão onde geralmente se colocam as fotografias dos filhos e as canecas do café (ou chá, conforme o gosto) uma série de folhas comprometedoras para outras tantas personalidades que tinham no banco HSBC, filial de Genebra, contas avultadas de muitos milhões, quase todas elas, parece, procurando fugir ao fisco. Ou, pelo menos, uma boa parte.

O PRIMEIRO, no canal público, a contar esta história foi José Rodrigues dos Santos. O banco em questão tem um nome que é demasiado longo para ser memorizado pelas gentes que lidam com dinheiros e também muito longo para poder ser afixado nas incontáveis paredes das suas agências espalhadas por todo este mundo. Como fazem quase todos os outros bancos, mesmo os de nome curto e facilmente pronunciável, The Hongkong and Shangai Banking Corporation Limited resolveu ultrapassar essas dificuldades e escolheu a sigla HSBC, sendo o H (de Hongkong), o S (de Shangai),o B (de Bank) e o C (de Corporation). Ouvi na nossa televisão pública José Rodrigues dos Santos chamar-lhe Eitche, Esse, Bi, Ci, numa pronúncia tão BBC-iana (canal inglês onde trabalhou) que até impressionava. Mas o que impressiona ainda mais é que José Rodrigues dos Santos, quando fala da estação inglesa em que trabalhou diz simplesmente “Bêbêcê”. Não percebo esta cagança anglo-saxónica que tem uns dias sim e outros não: mas isto cada um é como cada qual. Desde que ele não me venha falar do “BiCiPi” quando se referir ao Banco Comercial Portugês (vulgo BCP) está tudo bem.

Há dias, muitos para o meu gosto, em que me envergonho de ter esta nacionalidade. Melhor dizendo, em que sinto vergonha de ter a mesma nacionalidade de, por exemplo, Maria Luís Albuquerque. Foram muitas as notícias sobre as alegadas reticências do Governo português em relação ao acordo com a Grécia provocaram. As críticas surgiram depois de vários meios de comunicação social gregos (a Skai TV, o jornal Ekathimerini, entre outros) terem noticiado que os ministros das Finanças de Portugal e Espanha foram os que mais objecções levantaram à proposta de acordo. Já de volta, a ministra foi à TVI jurar a pés juntos que era falso, que a querem denegrir, etc, etc. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa disse que ela tinha estado mal, ao encontrar-se com o ministro das finanças alemão Schauble, antes do encontro do Eurogrupo… João Galamba diria que “as justificações da ministra não colhem, porque já são demasiadas descrições do que se passou na reunião do Eurogrupo e demasiadas descrições do que foi o comportamento do Governo português nas últimas semanas para que Maria Luís Albuquerque, dê as entrevistas que der, faça as declarações que fizer, possa apagar essa imagem.”

INFORMAÇÕES essas que ganharam corpo na conferência de imprensa do ministro das Finanças grego, que recusou comentar a situação por uma questão de “boas maneiras”. Yanis Varoufakis disse apenas: “Os ministros das Finanças português e espanhol são meus colegas e eu percebo que têm as suas próprias prioridades políticas. Foram motivados por essas prioridades políticas e eu respeito isso”. O Governo português desmentiria as notícias ainda no sábado passado, garantindo que se tratava de “um boato”. Na mesma noite, na entrevista à TVI, Maria Luís Albuquerque dava uma garantia: “Não sugeri a alteração de uma única vírgula”.

ALÉM do PS, também o secretário-geral do PCP afirmou que o Governo “sempre alinhou com o que de pior houve nas orientações europeias e é legítima a leitura de subserviência à Alemanha, porque a ministra das Finanças pôs-se a jeito”. “Nenhum de nós sabe o que se passou no Eurogrupo, mas é bom lembrar que neste processo de intervenção das troikas, designadamente no nosso país, (…) Passos Coelho afirmou na altura que o seu programa era o programa da troika, e que, custe o que custar, esse programa tinha de ser concretizado”, afirmou Jerónimo de Sousa.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«No fundo, se formos a ver, todas as televisões deram essencialmente o mesmo – mas de forma diferente. Não foi o pormenor de ter acompanhado o discurso deste ou daquele até ao fim que determinou o vencedor, mas sim no pormenor da qualidade (se calhar era mas exacto escrever “a não chateza”) dos convidados. Quem está para ouvir Pacheco Pereira, por exemplo? Ele próprio e um número bastante reduzido. Agora para ver Marcelo Rebelo de Sousa de novo na televisão, o entusiasmo deve ter sido diferente. Sem esquecer os trabalhos limpos e muito claros de Mega Ferreira e António Barreto. Isso, para mim, é que deve ter conquistado gente e a manteve agarrada ao televisor até quase à uma da manhã. E valeu a pena, porque esses comentadores tiveram até os seus momentos de graça.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada n Jornal de Sintra, ed. 4060 de 27 de Fevereiro de 2015

Leave a Reply